O PAPEL DO CAPACETE NA ESCALADA

Artigo publicado na Revista Headwall – Dezembro 2003
Fotos ilustrativas inseridas por Marcelo Belo

O fato de alguém estar usando o capacete enquanto escala não costuma chamar a atenção e passa desapercebido, porém quando não é utilizado, o fato levanta muitos questionamentos entre uma boa parcela da comunidade escaladora.

Em uma extremidade existe a convicção que deveria ser usado sempre e que o não uso é sinônimo de irresponsabilidade, e em outra a visão de que é útil apenas em determinadas situações, não sendo imprescindível para todas as escaladas.

Com o propósito de ampliar a percepção das pessoas sobre o equipamento, abaixo estão alguns depoimentos de escaladores/as e montanhistas que passam, ou passaram, uma boa parte das suas vidas na rocha e na montanha.

Para os depoimentos, a revista procurou pessoas de faixas etárias e estilos de escalada diferentes, dessa forma reunindo uma variada gama de visões que podem contribuir para que a decisão de cada um, independente de qual for, seja consciente.

1. Comprei meu capacete por volta de 1996, inúmeras cicatrizes registram sua importância na proteção do precioso crânio. Amigos sempre contam novos casos de pedras atingindo o capacete, ou no caso inverso, incidentes que acabam em pontos na cabeça. No meu ponto de vista, a relevância deste “EPI – Equipamento de Proteção Individual” é indiscutível, mas, cada cabeça uma sentença. Procuro incentivar meus amigos a utilizá-lo sempre que estamos em área de escalada. Peço o mesmo para quem estiver me dando segurança pois se ele for atingido e desmaiar posso ficar em maus lençóis. Acredito que o uso de capacete é questão de hábito, tanto nas vias esportivas, já escaladas diversas vezes, quanto nas conquistas onde quedas de rochas são freqüentes. Peso, calor e incômodo são ossos do ofício, perfeitamente suportáveis em troca do benefício da segurança. Capacete é investimento, assim como mosquetão, tem longa vida útil e pode fazer diferença uma única vez na carreira de escalada, ou se tudo der certo, nunca ser necessário. O importante é estar prevenido.

Daniel Ferreira Mariano, escalador em rocha desde 1994, pratica principalmente conquista desde 1997, com participação em mais de 50 novas vias, esportivas e tradicionais, em diversas áreas de escalada.

2. Em qualquer país, o uso do capacete sempre foi considerado como uma questão pessoal. Pode-se notar em qualquer revista de escalada americana, européia e australiana que a maioria das fotos mostram escaladores sem capacetes. Mas se o leitor for inteligente, vai olhar a paisagem em volta, o tipo de escalada e o tipo de rocha e, por conta própria, ele vai perceber por que o sujeito não está usando capacete. Primeiro, usa quem quer. Segundo, existem lugares onde o uso pode ser uma boa idéia e em outros lugares pode não fazer a menor diferença. Quem é experiente no esporte sabe que dependendo do tamanho da pedra que cair ou do tombo que o sujeito levar, pouco importa se o cara está usando, por isso é muito relativo. O uso é aconselhável em determinadas situações:
A) Em paredes de ambiente alpino com cobertura de neve/gelo permanente ou sazonalmente. Em todas as paredes nessa condição há quantidades enormes de blocos de rocha e de gelo soltos que caem constantemente;
B) Existem paredões constituídos de rochas muito fraturadas, que facilitam a produção de blocos soltos, como exemplo, rochas sedimentares metamórficas do tipo quartzito. É normal, nessas paredes, fendas horizontais devido à estratificação da rocha e fendas verticais, produzidas por esforços tectônicos. A malha de fendas verticais e horizontais proporcionam a produção de enormes blocos soltos, como é o caso das paredes de quartzito da Chapada Diamantina (BA).
C) Nas conquistas pode ser outro bom momento para usar capacete, principalmente para o sujeito que está embaixo. Tem sempre lacas de rocha se soltando, agarras quebrando e material de conquista caindo, quando não é o próprio conquistador que “voa”.
D) Para quem leciona em cursos de escalada, eticamente é aconselhável que o instrutor use capacete e force os alunos a usar durante as aulas, simplesmente para se precaver de ações judiciais, em caso de acidente.
Fora essas condições, o uso do capecete pode ser desnecessário. Toma-se como exemplo o Rio de Janeiro. Existem milhares de escaladores no Estado praticando e em todas essas décadas foram raríssimas as vezes em que alguém se machucou porque não usava capecete. São poucas as pessoas que usam capacete no Rio. Por quê? Porque não precisa. As nossas condições geológicas e climáticas não favorecem à produção de muitos blocos soltos. Os que existem, se cair sobre alguém, mesmo que o cara esteja usando armadura de aço ele dificilmente vai se salvar, porque eles são enormes. E existe ainda aquela velha situação do cara que está abaixo usando capacete, quando o de cima grita: Pedraaaaaaaaa!!!! Instintivamente o sujeito de baixo olha primeiro para cima exatamente quando o “projétil” está a poucos metros de sua cabeça e … Powwwww!
As nossas vias, a maioria são escaladas esportivas muito bem grampeadas onde as quedas são mínimas. É até engraçado quando alguém usa capacete quando escalam nelas. Seria quase igual usá-lo num muro de escalada dentro de uma academia. Se o escalador tem medo de subir essas vias, é melhor praticar outro esporte. Certa vez eu escalava o Urbanóide, no Corte do Cantagalo, Rio de Janeiro e o meu companheiro guiava quando caiu antes de chegar no grampo logo acima da parada, onde eu estava ancorado. Caiu com os dois pés sobre a minha cabeça em fator de queda 2. Doeu muito. Um capacete talvez tivesse diminuido a dor. Mas quantas vezes isso aconteceu em 23 anos de escalada? Apenas uma. Concluindo, o uso de capacete é uma opção pessoal, ninguém tem que encher a paciência de quem não usa.

Antonio Paulo Faria
Pratica há 23 anos todos os tipos de escaladas: vias esportivas, vias em grandes paredes e vias alpinas. Mora no Rio de Janeiro, onde escala mais freqüentemente. Raramente usa capacete no Brasil, só o faz quando julga necessário.

3. Embora seja indiscutível a validade do capacete para proteção do escalador, não acho que ele seja imprescindível em todas as situações.
Por esta razão, e porque eu o acho muito desconfortável, reservo o seu uso para aqueles casos em que, de acordo com a minha percepção, a probabilidade de algo (uma pedra, uma cabeça de marreta, uma talhadeira) cair na minha cabeça é maior. Isso inclui conquistas, seja com grampos ou com material móvel; fendas largas, porque acumulam muitas pedras soltas; e escaladas em rochas sabidamente mais frágeis, como certos arenitos, conglomerados ou mesmo granito/gnaisse muito “podre”.
Sei que esta minha percepção é arbitrária e sujeita a falhas, mas em nome do conforto assumo o risco assim mesmo, assim como assumo o risco de entrar no box molhado para tomar banho sem o uso de uma bota anti-derrapante, o que seria mais recomendável tendo em vista o grande número de acidentes deste tipo nas residências de todo o mundo… (eu mesmo sei de diversos casos…)
Acho que o uso do capacete deve ser obrigatório em todos os cursos básicos, sejam estes proporcionados por clubes ou por profissionais, para que então os alunos, quando os concluírem, façam a sua escolha com base em seu próprio discernimento, mas apóio integralmente aqueles que optam por usar capacetes sempre, em quaisquer circunstâncias.

André Ilha
Escala há 29 anos. Pratica quase tudo em escalada, com preferência para escaladas tradicionais e já participou de mais de 400 conquistas em diversos Estados do país – o que faz com que seu capacete esteja bem usadinho!

4. Essa é mais uma das tantas polêmicas existentes entre escaladores: Usar ou não usar capacete? Conheço pessoas que praticamente dormem com ele, outras que acham ridículo o seu uso e ainda tem o pessoal que escolhe quando usar. Será que seu uso é realmente necessário? A galera da escalada esportiva dificilmente está com ele na cabeça. Já quem faz escaladas maiores e mais complexas gosta de andar mais protegido. Mas será que temos como adivinhar quando ele vai ser útil? Fui fazer a Gallotti (Pão de Açúcar), éramos duas duplas. Na dupla de baixo, estava guiando um amigo (Michel) que não era muito chegado a usar capacete mas, tendo em vista esta via ter vários trechos em chaminé, ele se deixou convencer a usar um. Lá pelas tantas, quando meu participante estava numa das chaminés e esse amigo vinha guiando mais abaixo, uma bela e grande laca se soltou e caiu de ponta na cabeça dele. Fez uma marca e quase furou o capacete. Se estivesse sem….. creio que teria sido uma tragédia. Depois disso nunca mais o vi escalando sem um capacete.
Outra vez estávamos nas Paineiras fazendo as vias em móvel. Parede com menos de 10m de altura, ali é muito, mas muito raro ver alguém usando capacete, felizmente temos o hábito de usá-lo. Nosso amigo Marcelo Roberto acabou de guiar uma via e colocou como última proteção um camalot nº 5 (um verdadeiro guarda-chuva). Desceu “de baldinho” e quase chegando no chão o camalot saiu, desceu pela corda e bateu na cabeça dele, ou melhor no capacete….. a marca está lá….. felizmente no capacete e não na cabeça dele.
Ainda teve outra, estava guiando a via No Velho Oeste (Pão de Açúcar) e caí uns 10m. Como o lance era bem em pé e minha mão soltou, acabei rodando “lentamente” no ar. Quando a corda esticou, eu estava de cabeça para baixo e, com a “estilingada”, bati MUITO forte na pedra. Com certeza o capacete permitiu que minha cabeça não ficasse pior do que já é… rs..
E vai por aí, quem quiser saber de mais relatos, basta ir ao site de acidentes em montanhas www.segurancaemmontanha.com.br
Mesmo não concordando, devemos respeitar a decisão de cada um. O que não acho legal é ver pessoas fazendo apologia contra o uso de capacete. Se ela não quer usar…. paciência, mas dizer que não serve pra nada……..
Dificilmente estou sem capacete, às vezes, fazendo um top rope numa falésia, acabo “esquecendo” de colocá-lo. Mas, quando estou guiando acho tão importante quanto a cadeirinha. Já aconteceu de eu sair guiando e depois o participante berrar…”Aí… vai deixar o capacete aqui??”….. volto para pegá-lo.
Existem escaladas onde só vou se meu parceiro também estiver usando um. Pois, se algo ocorrer com qualquer um dos dois, o resgate será complicado e demorado. Um exemplo são as Torres de Bonsucesso (perto de Salinas/RJ). Caso ocorra um acidente e a dupla não tenha como sair sozinha, é quase certo que somente será resgatada no dia seguinte. Isso, se tiver celular ou alguma forma de comunicação. Em casos como esses, a dupla passa a ser uma pessoa, pois o que ocorrer com um, irá afetar os dois.
O hábito de usar ou não capacete tem grande relação com a maneira que a pessoa aprendeu a escalar. Se quem ensinou usava e fez as pessoas usarem, há grandes possibilidades desse escalador continuar usando. Já quem aprende a escalar ouvindo frases do tipo: “Aí.. esse negócio de capacete não serve pra nada, se vier uma pedra grande de verdade vai quebrar capacete, cabeça e tudo…” ou então… “capacete é coisa de mané”….. Dificilmente esse escalador irá simpatizar com o uso.
Como sempre, a segurança na escalada está diretamente relacionada com a formação do escalador. Se todos fizessem um curso de escalada sério, iriam aprender a usá-lo.
Nos cursos homologados pela FEMERJ, é obrigatório que, tanto os guias quanto os alunos usem capacete. Essa é uma das muitas condições para um curso ser homologado.

Bernardo Collares Arantes
Guia de Montanha formado pelo CEC, escala desde 1995. Modalidades: Conquistas, eventualmente escalada esportiva e preferência por vias longas em grandes paredes, com utilização de proteção móvel.

5. Sou suspeito para falar sobre o uso ou não do capacete em escaladas, porque sou montanhista e escalador desde a idade de 18 anos, quando comecei a ter contato com as montanhas, de 1948 até os dias de hoje; e em 74 anos de vida e 55 de escaladas nunca usei capacete.
Naquela época os equipamentos de escalada eram completamente diferentes da época atual. Para enumerar alguns, posso citar:
1. Botas cardadas, depois “china-paus” (sapatos de corda), agora sapatilhas;
2. Calças “blue-jeans”, hoje bermudas;
3. Cordas de sisal, hoje de nylon;
4. “um” (1) mosquetão de ferro para cada escalada, hoje 30 ou 40 de alumínio;
5. Capacetes não existiam.
E por aí vai.
Participei de centenas de escaladas e algumas conquistas, como Chaminé Expeedito Miranda (nos 3 Pontões de Afonso Cláudio – ES), Chaminé Cachoeiro, Chaminé Gallotti, Agulha Guarishi, Variante Laércio Martins e Paredão Secundo Costa Neto, e nunca fui ameaçado ou vi, durante as escaladas, pedras caindo sobre nós.
Atualmente participei, com o Clube Excursionista Carioca, de algumas aulas de Técnica de Escalada e notei que todos usavam capacetes. Notei também reclamações de alguns alunos sobre o uso deste equipamento. Incômodo, esquenta muito a cabeça. Convenhamos que no verão realmente deve ser muito incômodo.
Nesses anos todos em que participei de escaladas, somente soube de um caso de acidente. Esse caso aconteceu com o Guia do Centro dos Excursionistas e do C.E.C., Hamilkar Reigas (com quem fiz várias escaladas), guiando uma excursão ao Dedo de Deus, via Caminho Teixeira, quando ao subir a Chaminé das Pedras Soltas (hoje não existe mais essa chaminé), avisou aos participantes abaixo dele que ele havia deslocado com os pés algumas pedras (palavras do Hamilkar: “olha a pedra”), quando então uma das participantes, em vez de chegar para o lado e se proteger, olhou para cima e recebeu uma pedrada na cabeça, vindo a falecer.
Particularmente, não vejo necessidade do uso do capacete. Talvez em algumas montanhas onde a pedra esfarela. Nossa rocha é granito, muito dura, diferente das montanhas onde existe gelo e neve, já que com o degelo as rochas sofrem rachaduras e se desfazem, esfarelando e trazendo perigo para quem escala.
Em esportes como ciclismo, motociclismo e outros, aí sim, vejo necessidade do uso por causa das quedas, mas no montanhismo não vejo essa necessidade. Tanto que grandes escaladores da atualidade não usam o capacete.
Conclusão: Em 55 anos de escalada só ouvi de um caso de pedra caindo, com perigo, em cima de alguém. É minha opinião.

Tadeusz E. Hollup – escalador veterano do Rio de Janeiro

6. Tudo bem, eu concordo com a maioria de vocês: existem poucas coisas mais desagradáveis relacionadas com escaladas e montanhas do que usar capacete. Aliás, deve ser a segunda coisa mais desagradável.
Capacetes são geralmente uma chatice. Pesados, sem glamour algum, fazem volume na mochila (por mais que você enfie coisas dentro dele sempre dão a impressão de roubar espaço), esquentam a cabeça e você ainda tem de conviver com o olhar babaca daquele sujeito que escala melhor do que você (ou que pelo menos parece passar tranquilo o “crux” da via) e, é claro, não usa capacete.
E olha que eu já tive um punhado deles desde o final da década de 70, quando comecei a escalar. Curiosamente, naquela época, o capacete era um dos poucos equipamentos de montanha que era acessível, isto porque havia um fabricante com habilidades em fibra de vidro, matéria prima usada então na fabricação de capacetes em geral. Desta forma, simplesmente na falta de outros equipamentos disponíveis, cada escalador comprava o seu capacete, o que tinha como efeito colateral fazer com que nos sentíssemos mais “montanhistas” do que os outros farofeiros que iam para a Serra do Mar.
Meu primeiro capacete, conseguido graças a uma artimanha (convidei meu pai para assistir uma escalada minha junto com amigos, o que serviu de estímulo para ele me dar de presente o equipo), durou na verdade o tempo de aprendizagem, pois foi destruído durante uma queda em uma via recém aberta no nosso campo-escola (uma via banal, que depois iria solar regularmente, mas afinal de contas, era o tempo do kichute com solado de colarinho de pneu de caminhão).
Um segundo capacete teve destino semelhante, foi destruído no seu primeiro impacto real. O consolo é que pelo menos desta vez foi durante a abertura de uma via importante no Marumbi. Entretanto, por esta época nosso fabricante havia se mudado para o Rio e como eu resolvi prosseguir na tal via em solitário, acabei adotando a única solução possível na época: passei em uma revenda de motos e comprei um modelo “pequeno”, destes usados para motonetas. Acabei adaptando o tal capacete, mas mesmo assim continuava grande, pesado e desajeitado. Não lembro que fim levou. Certamente mereceu meu desprezo e deve ter sido vendido junto com outras coisas velhas.
Assim, no fim dos anos 80 e início dos 90 quando entrei em uma fase extremamente produtiva como escalador, abrindo vias difíceis, expostas, às vezes em solitário ou em lugares remotos da nossa Serra do Mar (algumas não foram repetidas até hoje!), conhecendo lugares de escalada diferentes (Rio Grande do Sul, Córdoba, Bariloche, Baú, etc), estava totalmente “incapacetado”, ou seja, completamente descrente do capacete como equipamento básico de escalada como eram a corda, os mosquetões, a cadeirinha, os móveis, etc, conseqüência, claro, da limitada qualidade deste equipamento na época. Assim, a única proteção para minha cabeça nesta época era um prosaico e romântico lenço colorido, às vezes uma fralda de nenê (não a descartável, claro, aquela de algodão macio).
Em 94, porém, houve algo que começou a mudar meu ponto de vista. Participei da abertura da via Distraídos Venceremos no Baú e fosse guiando, fosse recebendo as rebarbas do meticuloso trabalho do Bito Meyer na abertura do artificial móvel da via, o que protegia minha cabeça já era um capacete de uma nova geração, mais leve, mais ergonômico e, principalmente, feito com materiais menos descartáveis, como kevlar ou nylon.
Minhas seguintes viagens aos Andes já incorporaram esta nova tecnologia. Para quem escala em rocha, os Andes representam toda uma descoberta. Arenitos, conglomerados, rocha vulcânica “fresquinha”, granitos e, é claro, neve e gelo e muita, mas muita pedra solta. Muitas vezes, em regiões um pouco mais remotas, até uma simples caminhada pode ser bastante comprometida e se você pode contar com uma proteção extra contra pedras perdidas, ou quedas maliciosas bem, então você usa e se sente mais seguro e feliz com isto.
Existem, claro, histórias sem capacetes também, algumas trágicas, outras onde a mão divina salvou algum pateta. Lembro de uma bem esquisita. Um guri (acho que se chamava Vitor) estava no campo-escola, pulou uma costura na primeira guiada da vida e teve uma queda feia. Alguém me chamou dizendo que era grave. Subimos com a maca e está lá o tal do Vitor todo faceiro. Fiz o apressadinho que mandou me chamar com a maca descer com ela e ficamos lá num lero lero com o cara. Nenhum aranhão. Dizia que era estudante de medicina, perguntava quem era o Du Bois, que estava feliz em me conhecer e que iria me mostrar que não estava em estado de choque por causa de um procedimento médico que conhecia da faculdade. Fazia o tal do procedimento e … silêncio.
5 minutos depois começava tudo de novo: dizia que era estudante de medicina, perguntava quem era o Du Bois (uma outra pessoa se apresentava), que estava feliz em me conhecer, etc, etc. Estado de choque. E assim foi, até o hospital.
Então, qual poderia ser a primeira coisa mais desagradável relacionada com escaladas e montanhas? Um crânio quebrado? Vai conferir?

Edson Struminski (Du Bois) é montanhista há 25 anos.

7. Não acho necessário usar capacete toda hora, por obrigação. Aqui no Rio o clima é quase sempre bem quente, usar capacete acaba tornando a escalada desprazerosa. E nós escalamos para nos divertirmos. Fica incoerente.
Uma coisa não se pode ignorar: escalada em rocha é um esporte perigoso! A partir do momento que você resolve escalar, está assumindo riscos. Uma corda pode cortar atrás de uma laca, sempre algo inesperado pode acontecer. Se formos pensar em riscos, vamos ter que colocar grampo de metro em metro.
Eu costumo usar capacete nas conquistas, quando tem muita gente escalando em cima, e em diagonais e horizontais expostas, aí tanto pro guia quanto para o participante. E claro, em vias expostas quando tem grande risco de cair mal e bater com a cabeça.
Quanto aos meus alunos, eu sempre pergunto se querem usar capacete, deixo-os livres para escolher, pois eles têm que ser responsáveis por seus atos. Muitas vezes a resposta é não, normalmente devido ao calor intenso na parede. Se não for numa das situações citadas acima, tudo bem.
E capacete às vezes atrapalha os movimentos. Tenho duas experiências a respeito: na trad Viagem ao Fundo do Mar, 7c/8a E6, o capacete batia na pedra quando olhava pra baixo e isso poderia me derrubar. Dava pra eu tentar ensaiar com capacete e acostumar, mas fiz a opção e preferi ficar mais livre. Já em outra trad, só que esta mais difícil e perigosa, o Se Segura Malandro, (projeto) 9b possível E8, o capacete atrapalhava igual. De tão reta e delicada, quando olhava pra baixo o capacete acabava empurrando o meu corpo pra trás, só que dessa vez resolvi insistir em usá-lo devido ao grande risco de uma queda feia. A via era muito perigosa, tive que acostumar.
É isso, às vezes não uso porque não quero, dá mais sensação de liberdade, do movimento mais livre, é uma questão de avaliar as condições e escolher; do mesmo jeito que escolho entrar numa via e protegê-la só com peças móveis, onde der.

Ralf Côrtes
Escala há 18 anos, principalmente na Urca, onde treina, dá aulas e mora. Modalidades: escalada em livre em geral

8. A cada dia que eu me levanto da cama, me exponho a uma série de riscos. Posso tomar um choque no banho, me queimar com o café, cair no fosso do elevador, ser atropelado na calçada por um bêbado, tomar um tiro no peito durante um assalto, pegar alguma doença contagiosa, etc, etc..Quando vou escalar, mais riscos se somam a esses: a corda pode cortar, o grampo pode quebrar e uma pedra pode arregaçar a minha cabeça. E daí? Não estou a fim de usar capacete, assim como não estou a fim de parar de escalar, nem de sair à noite de casa, nem de atravessar a rua pra chegar ao meu trabalho. O que faz um risco ser aceitável? Como algum escalador pode falar para outro que escalar sem capacete é perigoso? Uma pessoal normal diria que ambos são loucos, pelo simples fato de estarem penduraos a 50 metros do chão! Portanto, o risco é apenas uma questão de ponto de vista. Se você, assim como eu, não quer usar capacete, faça essa escolha conhecendo os riscos, que não são poucos!

Alexandre (Linha) Paranhos
Escala há 12 anos, atualmente se dedicando principalmente ao bouldering.

9. De um modo geral, a decisão de utilizar qualquer equipamento de proteção depende da relação entre o risco percebido e os incômodos de usá-lo. No que se refere ao uso do capacete em escaladas, essa relação traduz-se basicamente em julgar o risco que corremos de levar uma pedrada na cabeça frente aos inconvenientes do capacete; ele ocupa espaço, esquenta e incomoda (especialmente aquela fita embaixo do queixo). No meu caso, a maioria das escaladas que faço são vias esportivas negativas ou vias razoavelmente freqüentadas, onde na minha percepção há uma chance muito pequena de pedras caírem ou eu sofrer uma queda que possa bater a cabeça. Aliás, em falésias esportivas, o capacete é mais importante para quem está na base… Outro fator que influencia nossa percepção são os casos que ouvimos. E eu não me lembro de nenhum aqui no Brasil em que o capacete tenha feito alguma diferença. Sendo assim, uso capacete apenas em lugares onde a rocha é quebradiça e em algumas conquistas. Mas, como nem sempre nossa percepção de risco corresponde à realidade, e ainda não dispomos de estudos ou estatísticas sobre os benefícios do uso do capacete nas escaladas brasileiras, é bastante importante a troca de opiniões e experiências, para que nossa percepção de risco se torne a mais apurada possível. Essa discussão é válida, inclusive, para repensarmos nosso comportamento. Você olha o tempo todo pro guia quando ele está escalando bem acima de você? Você fica “de bobeira” bem embaixo das vias na base das falésias? Vamos ficar espertos!

Mônica Pranzl – escaladora do Rio de Janeiro

10. Por diversas vezes tive que me desviar de pedras caindo. Numa dessas vezes, durante a conquista da via Maria Nebulosa, enquanto estava no platô de bivaque organizando o material, Fernandes deixou cair uma pedra. Fiquei observando sua trajetória (melhor do que sair correndo como louco ou simplesmente tampar a cabeça como uma avestruz), para desviar no último momento. Para minha surpresa a pedra bateu acima de mim e se dividiu em duas, passando uma de cada lado de minha cabeça. Neste momento estava sem capacete (um dos poucos durante a conquista). Dei sorte, mas a história poderia ter sido diferente e eu poderia não estar aqui para conta-lá.
No meu dia a dia, porém, não uso capacete. Basicamente por dois motivos: o primeiro é costume e o segundo é por que a rocha em que escalo não oferece muito risco e não costuma ter muita coisa solta. Nesse caso fica sendo meio obsoleto, além de ser incômodo e ocupar muito espaço na mochila. Só o utilizo em algumas ocasiões como: conquista ou em lugares em que a rocha é muito podre.
É mais uma questão de adaptação. Quando trabalhei em plataforma de petroleo executando tabalhos de escalada industrial, passava o dia inteiro com capacete na cabeça. No começo foi difícil mas com o tempo parecia que nem estava mais usando.
Acho que em certos locais não é necessario, no entanto, insisto para que as pessoas usem, pois é um hábito saudável. Apesar de usar raramente, acho capacete peça fundamental, pois em se tratando de segurança, todo cuidado é pouco.

Alex Sandro “Che” Ribeiro
Escalador há 10 anos, com mais de 100 vias conquistadas no Brasil (boulder, clássicas, artificial, vias esportivas, conquista em solo integral e de auto segurança). Preferência: escaladas em grandes paredes, artificial e fendas.

11. Imagine-se numa via esportiva com grampo a cada metro e meio, de rocha sólida num local já malhado, onde “o que tinha pra cair já caiu”, e além disso você ainda pode descer seu companheiro de volta ao chão de baldinho. Precisa de capacete? Se, eticamente, querem dizer que sim, por mim tudo bem, mas com certeza você não me verá usando.
Agora imagine-se num boulder de teto ou bem negativo, com chão irregular e uma árvore atrás, já a dois metros do chão. Precisa de capacete? Eu diria que precisa, mas você também não me verá usando.
E se você estiver numa parede longa, utilizando equipamentos móveis para proteção, em terreno acima desconhecido. Precisa? Acredito que sim e com certeza você me verá de capacete.
Na primeira situação imaginamos tipicamente a escalada esportiva, onde a grande maioria jamais usaria capacete. Eu pergunto, está errado?
Na segunda falamos do boulder, uma modalidade que na teoria, até mesmo os mais tradicionalistas, abrem mão deste equipamento. Mas o perigo está lá, descarado aos seus olhos… E aí, está errado?
Na terceira suposição a coisa muda de figura. O não uso do capacete torna-se uma atitude irresponsável, onde além da própria segurança você estará envolvendo outras pessoas.
Por essas e outras que não posso dizer que faço uso do capacete em 100% das minhas escaladas. Se um aluno me pergunta se deve usar, ou fulano vai pro Baú pela primeira vez, com certeza direi: use o capacete. Não por acreditar que fará a diferença naquela escalada, mas sim, para que este escalador possa por si só, analisar os riscos e decida, se numa próxima vez, usará novamente.
Acho que um dos fatores mais apaixonantes na escalada é justamente a falta de regras, e a infinidade de variantes em cada uma das modalidades praticadas. Não há manual a seguir, nem árbitro, nem tempo, nem quadra, linhas ou placar eletrônico, portanto o uso ou não do capacete só depende do julgamento de cada um.

Alê Silva
Escala há 10 anos – boulder, falésias esportivas, big walls, montanhas geladas e cascatas.

12. Seria um pouco estranho dar minha opinião defendendo o uso do capacete, pois este é um equipamento que uso muito pouco.
Em Curitiba, onde moro, é possível ver de tudo, até radicais que fazem boulder de capacete e os menos preocupados, isso é realmente extremo. Como passo a maioria do ano escalando vias esportivas acabo não usando muito, mas como na região de Curitiba a rocha predominante para escalada esportiva é o arenito, o uso é realmente necessário em alguns casos, como conquista de vias novas ou até mesmo novos setores onde a rocha ainda é quebradiça. Já vi muitos casos de grandes pedaços de rocha virem abaixo e não acertarem o segurança por pura sorte!
Hoje a velha desculpa de dizer que escalar de capacete é desconfortável e pesado não cola mais, pois hoje temos uma alta tecnologia empregada nos mesmos, que os tornaram mais leves e anatômicos. Os casos onde acabo usando capacete são quando escalo com proteções móveis, vias expostas, escaladas de aventura e setores onde as rochas aparentam ser quebradiças e duvidosas. Mas meu parecer fica que cada um deve ter o direito de escolher, mas sempre lembrando que isso pode lhe acarretar sérios danos, portanto o julgamento sobre o uso ou não deve ser muito bem refletido.

Anderson Gouveia
Escala há 13 anos. Modalidade mais praticada: Esportiva

13. Subo montanhas desde 1980, fiz o curso básico no Clube Paranaense de Montahnismo em 1982 e aprendi a escalar utilizando capacete. Depois veio a fase da escalada esportiva, calça de lycra, etc., e claro sem capacete, mas sempre que entrava em uma grande parede utilizava.
Atualmente escalo todos os finais e eventualmente durante a semana, e sempre utilizo capacete. Como dou aulas e sei que acabo influenciando novos escaladores, sempre utilizo, mesmo em vias esportivas. Muita gente não utilizava capacete e começou a utilizar por influência do COSMO. Infelizmente ainda hoje vejo alguns instrutores e pseudo guias não utilizando.

Ronaldo Franzen (Nativo)

14. Analisando a situação e os fatores de riscos envolvidos na atividade, você decide se quer ou não pagar o preço de utilizar um capacete. A experiência ajuda a julgar melhor, porém nunca estamos livre de acidentes… e o que pode acontecer de pior seria levar uma pancada na cabeça e transformar o dia de escalada em um pesadelo, talvez nem o dia… a sua vida.
Pedras caindo ou uma queda mal planejada, um inconsequente rolando pedras, cocos, pneus do cume… coisas que estão além do nosso controle…. cotidianas no mundo montanhístico, como na vida real… bala perdida, acidentes de carro.
Além do capacete, devemos cuidar muito onde estamos posicionados… pedras grandes podem literamente esmagar você e o maldito capacete, cabe a cada um julgar com moderação e procurar se proteger.
Eu particularmente não uso capacete no campo escola que frequento, somente em escaladas tradicionais e conquistas.

Claudio Bridi
Escala desde 1997. Nos últimos 3 anos tem conquistado e escalado vias tradicionais e artificiais na região de Nova Petropolis/RS e solitárias e tradicionais na província de Guang Dong/China, onde morou de 1998 a 2001. Modalidade preferida: Tradicional.

15. Não sou usuário habitual de capacetes, embora respeite quem os use, e na maioria das vezes os recomende.
O meu uso restringe-se em situações em que a chance de queda de objetos em minha cabeça é grande. Agora fica a pergunta, quando? Em que situação? O que tento praticar é colocar um pouco de bom senso na cabeça. Os capacetes normalmente sao construídos com uma determinada resistência contra perfuração e também de sua capacidade de amortecimento.
Visto isto, conhecendo a história do complexo Baú/Bauzinho (SP), é absolutamente obrigatório o seu uso nas vias situadas na face norte do Bauzinho. Turistas desavisados se divertem vendo as pedras lançadas abaixo despedaçarem-se aos cacos. Sem esqueçer que há a proliferação de aventureiros radicais fazendo rapéis e mais rapéis sobre a sua cabeça, podendo ser considerado um sortudo se apenas um mosquetão cair sobre a sua cabeça. Não vou entrar no mérito sobre este assunto, já tão discutido, mas é um fato plenamente possível. É uma triste realidade que deve estar se repetindo em vários locais de escalada por aí afora. PROTEJAM-SE contra essa situação, em qualquer lugar que voce esteja. A qualquer momento pode chover “coisas sobre a sua cabeça”.
Resumindo, embora nao morra de amores pelo capacete, em condições normais, só não uso em vias evidentemente esportivas e quintal de minha casa (explicando melhor, onde eu tiver o domínio da situação). Em conquistas, vias longas, vias em artificial, sejam ‘big wall’ ou não, vias situadas em regiões de frio e calor intenso onde a possibilidade de ter blocos e lacas soltas são grandes em funcão da diferença de temperatura, nessas condições acho que é obrigatório o uso do capacete. De todo modo, é sempre salutar entrar em contato com os escaladores locais a respeito das condições das vias que pretendem escalar.
Quanto ao material, de mesma maneira que recomendo os equipamentos de escalada diretamente relacionados a segurança, reconhecidamente de primeira linha, não tenha dúvida na escolha do seu capacete, faça o mesmo, é mais caro mesmo, mas é a sua integridade física que está em jogo.
E uma dica importante, ao puxar a sua corda após o rapel, tome muito cuidado para não trazer junto com a ponta da corda, uma laca solta, uma pedra ou até uma inofensiva bromélia que ao despencar de mais de 25 m em queda livre pode fazer um estrago e tanto. Observe bem durante o rapel se tem pedras e lacas soltas pelo caminho. Já presenciei alguns acidentes, felizmente não fatais, mas que certamente poderiam ser minimizados se estivessem utilizando um capacete. Cuidem-se e boas escaladas.

Reinaldo Kaizuka é montanhista e escalador há mais de 12 anos, tendo participado de várias conquistas no complexo Baú e Bauzinho (SP).

16. Quando comecei escalar em 1993, pouco se falava do uso do capacete na escalada, mesmo porque, aqui em Caxias do Sul, não se encontravam com facilidade equipamentos para prática deste esporte. No entanto, não demorou muito para percebermos a importância da sua utilização, pois nessa região as vias mais longas (duas ou mais enfiadas) apresentam uma grande quantidade de pedras soltas. Elas
também costumam ser vias positivas contribuindo para que os escaladores sejam atingidos em caso de queda de objetos. Além disso, as próprias trilhas de acesso às vias nos sugerem o uso do capacete. Então, adquiri o artefato o mais rápido possível.
Faço sempre o uso do capacete quando ministro cursos de escalada em rocha. Também o utilizo quando escalo vias mais longas e nas conquistas de vias. Porém, não utilizo o capacete quando escalo vias
esportivas. Isso, por um lado, se deve ao aspecto cultural de não se usar capacete para escalada esportiva, e por outro, porque o capacete tira um pouco da liberdade de movimentos. Nesse caso, o uso dá a idéia de que a escalada não flui a contento. Outro motivo é que a maioria das vias esportivas daqui de Caxias são negativas e de rocha mais consistente o que torna mais difícil a queda de pedras no segurador ou no próprio escalador.
Finalmente, o que devemos sempre utilizar é o bom senso e muita informação em todas as situações. Isso é o melhor a fazer.

Roni Marcio Andres
Escala há 10 anos. Modalidades: Artificial, Proteção Móvel e Esportiva. Essa última é a que mais pratica. Lugares que mais freqüenta: Gruta 3ª Légua e Salto Ventoso (RS).

17. Na escalada é dificil prever quando acontecerá um acidente, pode ser uma pedra que cai, uma agarra que quebra provocando uma queda imprevisível do escalador, onde facilmente a pessoa pode vir a bater a
cabeça na parede. Muitos escaladores esportivos dizem não haver
perigo algum escalar sem o capacete porque as vias normalmente são
curtas e bem protegidas, porém já observei muitos destes escaladores
guiando uma via esportiva com o posicionamento errado da corda,
como por exemplo passando entre as pernas os lances diagonais, o
que fatalmente em uma eventual queda faria a pessoa virar de cabeça
para baixo e poderia ocasionar um acidente. Já observei vários outros
escaladores conhecidos em nosso meio que não fazem o uso do
capacete e que deveriam dar o exemplo porque muitos jovens que
estão iniciando a escalada se espelham nesses escaladores.
Eu considero o uso do capacete indispensável a qualquer atividade
ligada ao montanhismo, seja na escalada, na alta montanha, no rapel
e na maioria dos esportes outdoor. O capacete é tão necessário para
proteção quanto a sapatilha é fundamental para a ascensão.
Hoje encontramos capacetes super leves e confortáveis, impossível
aceitar a desculpa de incômodo para justificar o não uso pelo
escalador. Já presenciei muitos casos de acidente por negligência do praticante, portanto sempre procuro preservar a minha integridade física e de quem escala comigo, pois não vale arriscar-se por uma questão de comodismo.

Mario Arnaud
Pratica o monatnhismo há 37 anos, tendo aberto várias vias de
escalada em diferentes Estados no Brasil. Pratica a escalada
esportiva, falésia, grandes paredes e alta montanha.

18. Toda escolha implica optar por alguma coisa e consequentemente implica também em abrir mão, abdicar, de outras coisas. Toda escolha implica em alguma renúncia e consequentemente um compromisso com o que escolhermos e com as suas eventuais consequências adversas. Usar ou não capacete é uma escolha, e portanto implica em renúncia e em eventuais consequências pelo caminho escolhido.
Nem sempre uso capacete, mas na maioria esmagadora das vezes eu uso.
Porquê não uso capacete: às vezes incomoda, tira um pouco de ângulo de visão para cima, entala em fendas de meio corpo, é uma tralha a mais para enfiar na mochila, tem um certo peso, por mais leve que seja e ao longo de períodos longos cansa o pescoço.
Porquê uso capacete: Se um bloco ou pedra cair no seu braço, na sua perna, e fizer um estrago pra valer, é bem provável que você ainda saia de lá consciente, de forma a ajudar as pessoas que estiverem te resgatando. Se cai um bloco ou pedra na sua cabeça e faz um estrago equivalente, você não só dificilmente vai estar em condições de ajudar as pessoas no seu próprio resgate, mas pode ser retirado de lá ensacado. Em termo de vulnerabilidade em um acidente de impacto, nossa cabeça é dos pontos mais críticos de todo o corpo. Refletindo com racionalidade fria, a cabeça deve ser protegida.
Na escalada a cabeça é ameaçada em várias situações possíveis de acontecer:
– Queda do guia com a corda mal posicionada por baixo/atrás da perna: na queda a corda vira o guia de ponta cabeça, expondo a cabeça contra a parede ou algum eventual platô. Mais provável de acontecer com escaladores que não tem muita experiência guiando, escaladores experientes que esquecem de “lembrar” da corda enquanto guiam, vias que devido ao posicionamento da proteção e movimentação obrigatória a corda acaba ficando inevitavelmente por pelo menos um movimento em situação indevida.
– Queda de pedras, blocos: bem provável em uma conquista, em vias pouco frequentadas, em locais com muita aglomeração de escaladores/vias, onde a configuração da perede e o tipo de rocha apresentam tradicionalmente mais pedras soltas. Paredes mais verticais e fragmentadas, eventualmente existência de vegetação e grandes platôs tornam mais provável pedras/blocos soltos do que em um positivão de rocha compacta. Arenito, quartizito e em algumas situações o basalto são propícios à se encontrar coisas soltas. Essa queda pode ser provocada por alguma agarra que quebre.
– Queda de equipamentos: mais provável de acontecer quando há pessoas inexperientes ou desatentas manipulando material acima, em vias onde se faz muita manipulação de equipamentos. Alguns equipamentos podem ser mortais mesmo se acertando o colega de capacete. O martelo por exemplo. Leve-o sempre muito bem amarrado com um cordim à cadeirinha e certifique-se de que a bola de aço não vai se desprender do cabo em hipótese alguma. Outro conselho é que você não compre em hipótese alguma um martelo/marreta de má qualidade para conquista.
– Queda no chão: quando o guia acerta o chão antes de esticar a corda, quando alguma(s) proteção(ões) falha(m), quando não se está encordado (seja escalando ou em algumas aproximações mais expostas), em algum vacilo no procedimento da parada ou do rapel, falha generalizada da parada ou da(s) sua(s) ancoragem(ns). Enfim, as possibilidades disso acontecer são muitas, mas são pouco prováveis para um escalador que sempre usa os procedimentos de segurança de forma adequada.
– Queda em esticões: principalmente em positivos, é um risco ao cair “sair rolando” caso não se administre a queda. Platôs, bicos, facas, pontas… todos potencialmente são um risco para o escalador em uma queda guiando. O escalador experiente sempre escala observando a existência desses riscos em caso de uma eventual queda.
Assim, a experiência é capaz de minimizar todos estes fatores de risco acima, mas obviamente é incapaz de eliminá-los completamente.
Portanto acredito que a questão de usar ou não capacete vem de uma opção pessoal na análise dos fatores de risco acima em um dado momento. Por exemplo, acho uma loucura não usar o capacete em uma conquista, ao mesmo tempo que eu não uso quando estou brincando em um top rope descomprometido em algum lugar conhecido e que não é propício à pedras soltas.
Fico muito feliz com esta discussão que a Headwall está fomentando, pois acho que usar capacete ou não, não é uma “questão de estilo”, uma questão de “tribo”. É uma escolha pessoal, individual e deve ser feita pelas pessoas de forma consciente. Nisto está a importancia dessa discussão: informar as pessoas para que elas tenham uma opção consciente. Buenas olas.

Maurício “ToNTo” Clauzet
Escala desde 1990, variando entre esportiva, esportiva em móvel e tradicional.

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