Encontro com o Ecomotion

Por Fábio Yoshikazu Hanashiro

Tinha planejado, durante as minhas férias, de fazer alguma trilha sozinho. Escolhi a Pedra do Sino dentro do Parque Nacional da Serra dos Órgãos porque eu estaria perto do Rio de Janeiro, meu próximo destino de viagem, por ser dentro de um Parque com entrada controlada e também devido à bela vista que a caminhada proporciona.

Resolvi, então, fazer a subida à Pedra do Sino no dia 22/10/2007, uma segunda feira, acreditando que haveria poucas pessoas dentro do Parque neste dia. Entretanto, ao comprar meu ingresso para entrar no Parque, fui surpreeendido com a pergunta “Você é do Ecomotion?”. Fiquei extremamente surpreso, pois alguns dias antes havia lido nas listas do CAP e do CEU que o diretor do PARNASO não havia autorizado o evento lá dentro.

Fiquei um pouco chateado, mas resolvi continuar, afinal já estava lá mesmo. Comecei a caminhada às 09:30 da portaria do parque e subi os 10km até o Abrigo 4. Durante o caminho, percebi que muitos atalhos haviam sido fechados com fitas zebradas e mensagens avisando que atalhos causam erosão.

Achei isso muito bom, uma vez que muitas pessoas desavisadas acabam utilizando esses atalhos que erodem toda a região.
Cheguei no Abrigo 4 por volta das 14:00, encontrando lá o guarda Bruno, que se encontrava há 10 dias no local. Conversei um pouco com ele e montei minha barraca.

Algum tempo depois, a primeira equipe do Ecomotion passa por nós. Devia ser umas 16:30, provavelmente um grupo de franceses, que apenas pegou água e seguiu em frente. Outras equipes passaram pelo abrigo da mesma forma e resolvi subir ao cume da Pedra do Sino. No caminho cruzei com fotógrafos e com a jornalista Renata da ESPN Brasil. Ela deve apresentar algum programa que eu não conheço, pois não gosto de TV. Falei um pouco com ela, mas logo ela se foi para alcançar um membro de uma das equipes que passava. Conheci também o Gambá, um dos gerentes da prova. Ele me disse que tinham sido colocadas cordas no cavalinho e que eu poderia usar se quisesse.
Segui ao cume, onde fiquei um pouco e desci rapidamente devido à péssima visibilidade devido ao tempo que estava encoberto. Começou a anoitecer quando o Abrigo 4 estava trancado, pois Bruno havia saído para auxiliar as equipes. Neste momento, muitas equipes passavam por lá com sede e me pediam água. Auxiliava-os mostrando uma bica que existe próxima ao abrigo.

Anoiteceu, quando algumas equipes passavam e acabei ajudando-as, acordando as pessoas, cedendo espaço na minha barraca e no avancê, mostando o local da água. Algumas equipes eram bastante educadas, outras extremamente antipáticas. Porém, quando Bruno retornou e abriu o Abrigo 4, o movimento de equipes começou a se intensificar e percebi que algumas pessoas não respeitavam as normas – levar o lixo e não entrar com o calçado sujo. Logo depois a Renata da ESPN apareceu e conversou comigo, mostrando-se uma pessoa muito simpática, tendo feito parte do CEU e do CAP, dizendo que conhecia o Giobbi, Fábio Cascino, dentre outros. Falei com ela sobre a questão da autorização que o diretor do PARNASO não queria fornecer para o evento. Para minha surpresa, ela pediu detalhes do assunto, pois disse que não estava a par destas discussões e se mostrou, de certa forma, favorável ao ponto de vista de nós montanhistas. Disse que, se não tivessem colocado as fitas zebradas, certamente as equipes utilizariam os atalhos e que algumas até abrem novas trilhas mais curtas em algumas situações. Fez entretanto, uma ressalva dizendo não concordar com o modelo de conservacionismo dos Parques Nacionais, mas acabamos não discutindo mais o assunto.

Após ter cozinhado, dividido minha comida com o Bruno e a Renata, resolvi ir dormir por volta das 22:00, pois havia percebido que muitas equipes iriam chegar e o Abrigo 4 ficaria muito bagunçado. Entretanto, a noite foi bastante agitada, com equipes passando, apontando headlamps para a minha barraca, falando alto durante a noite inteira. Praticamente não consegui dormir.

Acordei no dia seguinte e o que vi foi lamentável. Muita sujeira na clareira, latas de energéticos, plásticos, enfim, todo o tipo de lixo jogado no chão. O Abrigo 4, então, encontrava-se em uma situação muito pior, pois segundo informação do Gambá, cerca de 20 equipes passaram a noite lá, ou seja, cerca de 100 pessoas!!!! O Gambá ainda varreu o Abrigo e juntou o lixo que estava lá dentro, mas não creio que ele tenha descido a trilha até a portaria varrendo.

O Bruno ainda me falou que pedia para as equipes não entrarem calçadas no Abrigo, mas depois de ver um cara torcendo uma camiseta acabou desistindo e indo dormir. Principalmente porque muitos não davam atenção ao que ele dizia. Disse ainda que teria muito trabalho para limpar toda aquela sujeira, e que o Abrigo estava bem limpo antes das equipes passarem (o que realmente era verdade).

Resolvi, então, descer para Teresópolis. Andei pela trilha onde, na madrugada anterior as equipes (mais de 200 pessoas) haviam passado. Aparentemente, as fitas zebradas e os avisos realmente impediram que as equipes utilizassem os atalhos. Mas não impediram que fosse jogado mais lixo, principalmente nos pontos estratégicos de parada. Infelizmente havia acabado a memória da minha câmera e não pude registrar este fato lamentável.

Resumindo, eu não era contra as competições, mas depois de ver a destruição causada no PARNASO, fiquei muito chateado com o evento. Mais chateado ainda de o mesmo ter sido autorizado de última hora porque os organizadores têm contatos em Brasília (segundo me afirmou o próprio Gambá). Espero que isto não ocorra novamente, pois quero muito que as gerações futuras possam desfrutar do ambiente da montanha como ele é, não totalmente alterado pelo ser humano.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copyright | Clube Alpino Paulista

Acima ↑