Relatos de saídas Belo em 27 Nov 2008
“Sudestiando” PARTE I
Por Victor Carvalho
Fala pessoal!
Cá estou, escrevendo um pouquinho sobre a viagem de escalada que eu e o Ricardo Nonaka fizemos em setembro, tentando passar pra vocês um pouquinho do prazer que foi rodar 27 dias pelo sudeste procurando rochas para escalar!
Bom, para entendermos sobre este viagem precisamos voltar um pouco no tempo, já que inicialmente nossos planos não era fazer esta viagem mas sim um outra, para Yosemite! Não se espantem, é sério! Tudo bem, tudo bem, eu sei que escalo somente a um ano (como vivo usando de desculpa quando não mando uma via), mas nossa intenção não era mandar “bigwalls” nem destruir em complexas fendas/fissuras no granito polido estadunidense, mas sim curtir aquele lugar que nos parece tão mágico por fotos e vídeos. Enfim, por uma questão financeira, desistimos.
Nosso segundo plano era fazer então algo pela América do Sul, mas saindo do Brasil. Mas essa idéia logo fora arquivada, uma vez que em setembro na América do Sul é difícil achar bons locais (fartos e de dificuldade variada) para escalada em rocha. Então, veio a idéia! Vamos percorrer o sudeste atrás de rochas! Atrás de montanhas! O Rick logo topou e começamos então a articular para onde nós iríamos “sudestiar”.
Inicialmente nosso plano era sair de sampa com destino à Itatiaia, depois Rio e posteriormente Teresópolis, Salinas, Cipó e Chapada Diamantina. Logo vimos que seria impossível cumprir essa meta em um mês e com isso eliminamos alguns locais. Itatiaia e a Chapada foram então alijados do projeto de viagem.
A segunda coisa era definir algumas vias a serem escaladas obrigatoriamente e com isso decidimos fazer no Rio (nossa nova primeira parada) as vias “K2″ (4° IVsup E2 D2), no Corcovado, e “Passagem dos Olhos” (3° IIIsup E2 D2) na Pedra da Gávea. Além disso tínhamos programado uma escalada no Pão de Açucar e alguma coisa na Babilônia. A “Via dos Italianos” não estava em nossos planos uma vez que tínhamos escalado a mesma no final de 2007.
No final das contas, saímos de sampa no dia 2 de setembro com destino ao Rio e chegando lá mandamos essas duas clássicas, que por sinal duas das escaladas mais bonitas que fiz em meu pequeno tempo de escalada, a via “Arca de Nóe” (3° Vsup E2), na Babilônia e duas tentativas na “Via dos Austríacos” (A1+ D4 350m), na face sul do Corcovado, nesta última as duas vezes descendo por questões climáticas sendo que na segunda tomamos chuva na parede.
No que diz respeito a K2, a escalada é composta por quatro enfiadas com uma bela vista aérea. A primeira enfiada é um diedro positivo que já é o “crux” da via. O Rick saiu guiando e mandou tranquilo sem dificuldades fazendo uma parada após este primeiro diedro, uma vez que estávamos em dúvida se pegaríamos a variante da segunda enfiada (outro diedro de sexto grau com proteção em móvel). Bom, subi a primeira enfiada com alguma dificuldade por falta de experiência naquele tipo de escalada, mas sem maiores problemas. O meu maior problema mesmo era a sapatilha (que o mané aqui teve a brilhante idéia de comprar a nova Trinity da Snake um número abaixo do normal) e como no dia anterior já tínhamos escalado a “Arca de Nóe” na Babilônia, estava que dores violentas na unha do dedão do pé esquerdo (que aliás vai cair por conta dela).
Como na K2 não estava conseguindo me concentrar por conta da dor e também por estar enferrujado releguei ao Rick a responsabilidade por guiar toda a K2 (diferente da Arca de Noé que havia guiado a primeira enfiada) sendo que ele decidiu seguir a linha original da via seguindo assim a travessia à esquerda na saída da segunda enfiada e mandando pra cima chegando na segunda parada. Também mandei a segunda enfiada em problemas (de segundo é outra coisa…) e o Rick já emendou a terceira enfiada (curta) que era outro pequeno diedro/fenda graduado em IV.
Chegamos na base da quarta enfiada bem rápido e mesmo começando a escalada tarde (por volta das 14h00) estávamos com luz natural de sobra já que não era nem cinco horas da tarde. O Rick mais uma vez guiou a enfiada (última) que é uma parede positiva de pequenas agarras e logo estávamos na trilha que leva ao Cristo Redentor. Escalada terminada, desfrutada, com um visual incrível! Aproveitamos o resto da luz pra tirar diversas fotos no Cristo e acabamos descendo no último bondinho (19h30) depois de ajudar a socorrer um garoto que havia caído na escada rolante do Cristo e machucado o joelho.
Na “Passagem dos Olhos” a trilha é bem mais puxada, com uma forte subida de 1h30 até a base da via, sendo que muita neblina cobria a pedra (monstruosa por sinal). Chegando na base ficamos um bom tempo esperando a neblina passar e nada e após uma breve análise decidimos seguir em frente assim mesmo já que tínhamos um mínimo de visibilidade e a previsão não apontava para chuva. Como havia comprado outra sapatilha no dia anterior (a mesma trinity dessa vez com o meu número) estava me sentindo melhor, sem dor e deicidi guiar a primeira enfiada da via que é bem tranquila (um 3° E2) que foi sem problemas. O Rick já emendou a segunda que nada mais é que o vara-mato à esquerda, emendou a terceira e quarta enfiadas também, sendo que pra mim sobrou só desbravar o cabo-de-aço que leva ao final da via. Na verdade como a via é uma grande travessia (com 130 metros) tanto o guia bem como o segundo não podem cair senão será igual dor de cabeça. Mas no final tudo deu certo, tirando o frio que nos pegou no meio da terceira enfiada, sendo que a então “neblina” estranhamente começou a condensar na gente e quando vimos estávamos encharcados no meio daquelas nuvens com ventos cortantes de arrancar a alma.
Por fim, como o Corcovado é muito bonito, surgiu um desejo muito grande de voltar a escalar lá e com isso procurando uma via achamos a “Via dos Austríacos”, na face sul, que por ser toda composta por grampos Stubai, grampos de 1/2 pol e parafusos, decidimos encarar a demanda. A escalada seria difícil porquê necessitaria do uso de técnicas de escalada em artificial que não conhecíamos muito bem na prática apesar de conhecer a teoria.
Pro nosso azar, nos perdemos na trilha que leva à parede e com isso foram-se três horas até chegar ao granito e com isso lá se ia nossa janela (já que a via era D4). Chegando lá também tinha uma cordada na via e ficamos observando a técnica utilizada e decidimos entrar pra fazer cada um a guiada de uma enfiada. Com isso o Rick saiu guiando a primeira e eu mandei a segunda enfiada. Depois disso descemos e fomos embora (pra nossa sorte já que o tempo iria virar mais tarde). Encontramos lá também alguns feras mandando a via “Atalho do Diabo”, entre ele o Luis “Pita” Bittencourt.
Decidimos então voltar no dia seguinte, já que na volta da parede localizamos a trilha curta que os locais usam pra chegar lá (30 minutor de caminhada). Já no dia seguinte, chegando bem cedo e desta vez sozinhos na parede começamos a escalar bem rápido. A idéia era o Rick mandar as quatro primeiras enfiadas e eu as quatro últimas. Conclusão: no meio da quarta enfiada a chuva desabou em cima da gente contrariando a previsão. Terminamos a quarta enfiada e rapelamos molhados, com frio e abatidos por ter que descer da via mais uma vez (a via são oito enfiadas de 50 metros cada uma na média) já que estávamos bem rápido com uma média de 1 hora por enfiada. Nesse dia em específico chegamos a escalar a via na francesa com 60 metros de corda esticada naquele paredão totalmente vertical.
Como pegamos a chuva lá no Rio, acabamos aumentando nossa estadia por lá, que contabilizou 8 dias (incluindo aí um dia de viagem de sampa pra lá e dois dias que ficamos parados sem atividade por conta de chuva). Como ficamos extremamente irritados com a chuva, desistimos do Rio, olhamos a previsão e vimos uma janela de três dias de tempo bom em Teresópolis e com isso decidimos partir pra lá com a idéia de escalar novamente o Dedo de Deus (já tínhamos escalado com o Marcos Preto, Paulo Chagas, Andréa Santana, Paulinha e Fernando Abdalla em 2007 pela Face Leste/Maria Cebola) e tentar um ataque ao cume da Agulha do Diabo, desejo latente em nossos corações de pedra.
Continua…
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em 27 de Novembro de 2008 @ 10:49 1.Belo disse:
Victor e Ricardo,
Muito bom o relato e excelentes escaladas
Legal ver que o Victor, que é relativamente novo e o Ricardo que estava desaparecido do clube estão com pique total
Se acharem legal, podem inclusive preparar uma apresentação p mostrar no CAP !
Abração