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Relatos de saídas Belo em 27 Nov 2008

Vocês são loucos !!! Pico de São Sebastião (ilhabela)

Por Celestino Lourenço (Zico)

Sexta – 28 de outubro de 2008.

Estou no escritório e ligo para o Manú para desejar-lhe boa sorte na ida a Itatiaia com amigos e também para confirmar que eu iria para Ilhabela fazer a travessia da Ilhabela via Castelhanos a pé; caso eu não desse noticias no domingo à noite teria dado alguma coisa errada.

Ao conversar com Manú, este se prontificou a ir comigo caso a ida a Itatiaia caísse. Passados 10 minutos recebi a ligação do Manú confirmando que iria junto e aí resolvi mudar a travessia de Castelhanos pela subida ao Pico de São Sebastião.

O Pico de São Sebastião é o maior pico da Ilhabela, 1375 metros e 5,5 kilometros de extensão, e não é normalmente listado pelos órgãos da cidade como uma das trilhas a ser feita.

Há aproximadamente um ano estava tentando conseguir algum companheiro para ir e nunca dava certo. Mas já tinha pesquisado na internet e encontrado uma bela descrição da trilha no blog de um amante das montanhas, porém não encontrei nenhum mapa da trilha.

Voltando ao dia 28 de outubro, sexta-feira, sai do trabalho, às 14:00 horas, com as malas e voltei para casa para mudar as coisas de mochila, pois iríamos de carro. Troquei a mochila por uma mais resistente e confortável, arrumei as coisas, peguei a descrição da trilha.

Às 18:30 o Manú passou em casa e rumamos para a Ilhabela pela Rodovia dos Tamoios e chegamos em torno das 23:00. Até arrumarmos Hotel, tomar umas cervejas e falar sobre coisas feitas, não feitas e coisas a serem feitas já era 1:00.

Oito horas da manhã do sábado, estávamos tomando café na Pousada Colonial e aproveitamos para fazer um lanche extra e pegar uma fruta para levar para a trilha.

Uma coisa importante era que a previsão era de chuva nos períodos da tarde e da noite; infelizmente caíram apenas algumas gotas no sábado à noite.

Como a idéia era pernoitar no Pico, entre as coisas que levamos havia uma barraca, comida rápida para uma refeição, repelente, bastões de caminhada, lanches para trilha e 1,5 litro de liquido cada (eu levei água e o Manú levou Gatorade e água de coco). Eu levei 4 saches de repositor energético, pois sempre uso em momentos de extrema exaustão. Um detalhe importante é que eu amarrei o saco de dormir em cima da mochila dentro de sacos de plásticos azul.

Deixamos o carro no estacionamento do Hotel e pegamos um coletivo para a entrada da pousada Recanto dos Pássaros onde se inicia a subida da trilha ( ver foto abaixo de propriedade intelectual de augusto multiply).
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Às 9:20 partimos da entrada de Recanto dos Pássaros (20 metros) e encaramos uma subida em estrada asfaltada até 240 metros ( + -) de altitude e depois começamos a caminhar por um pedaço da estrada em que o asfalto foi parcialmente coberto pela vegetação; é uma parte da estrada que foi literalmente abandonada.
Passados 20 minutos na estrada abandonada entramos na trilha dentro do mato e o Manú impôs um ritmo forte, como é de seu costume, e provavelmente não foi mais rápido porque eu não conseguia acompanhá-lo. Apesar de ser apenas dois dias estávamos com mochilas relativamente pesadas.

Durante todo o percurso íamos lendo a descrição que o Augusto Multiply pôs no seu site e o Manú ia marcando a trilha no GPS e assim sabíamos que havia água em 3 pontos : na Cachoeira – inicio da trilha, a 800 metros de altitude e no topo.

Passado pouco tempo estávamos caminhando na trilha e chegamos em algumas pedras na beira do rio. Como tínhamos consumido pouco líquido e tinha água em mais dois pontos passamos batido pelo rio, pois o que tínhamos de água. Gatorade é água de coco daria para chegar ao topo e pegar água lá.

A trilha é uma subida constante e você tem de passar embaixo de vários bambuzais, literalmente se arrastando no chão puxando as mochilas pela mão. Tem uns quatro lances parecidos em toda a trilha e é claro que nestas passagens sempre tem aqueles cipós e espinhos que vão impedindo que você avance. Nestas horas o saco de dormir sempre ficava preso e deixava pedaços de plásticos azul nos espinhos.

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Pau Brasil

Aproximadamente às 14:00 chegamos aos 800 metros e até esta parte da trilha é relativamente clara e tomando cuidados de não pegar saídas paralelas ( existem várias) você chega neste ponto. Mas, nesta altura a trilha literalmente some em algumas partes e em outras surgem várias trilhas. Levamos um bom tempo para achar a trilha correta.

Como estava com Camel Back eu ia tomando água a todo momento, pois apesar de não estar fazendo um forte calor eu suava muito pelo esforço da subida com a mochila. O Manú bebia pouco e economizava o seu líquido.

Como estava ficando tarde, estávamos com líquidos e como tinha água no topo resolvemos não pegar água no 2º ponto ( 800 metros) e seguir em frente para chegar ao topo com luz.

Á partir deste momento a trilha fica mais inclinada e passado algum tempo chegamos a uma grande pedra e achamos trilhas para os dois lados e optamos por seguir pela direita e chegamos a lugar nenhum. Como estava mais cansado e me considero menos experiente em trilhas, que o Manú, na maioria das vezes o deixava ir guiando e testando os caminhos para ver onde ia dar.

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Marca de trilha

Nesta pedra eu retornei e fui pela esquerda para ver se a trilha ia em frente e logo depois ouço o Manú me chamar pois os dois caminhos se cruzavam. Mas a impressão que você tem é que aquilo não é a trilha e para sua surpresa aquele rastro é a trilha.

Creio que o que ocorre é que como vão poucas pessoas para esta trilha ela é pouco batida e se formam vários caminhos que parecem trilhas; acho que podem ser formados pela chuva !! Um caiçara nos disse que tem mais de 1000 caminhos na trilha inteira do Pico.

Tem momentos em que você passa batido por um ponto de saída da trilha e segue em frente para depois perceber que chegou a um local que não pode ser a trilha, pois não dá para passar. Ai você retorna pela trilha e vê aquela “fdp” daquela saída e pensa como é que eu não vi isto !!!

De vez em quando eu perguntava ao Manú sobre a nossa altitude para saber quanto ainda faltava para chegar ao topo; na verdade eu queria saber se faltava muito e também porque eu já estava muito cansado.

Subimos mais e chegamos em uma grande pedra (1040 metros) que pode ser usada para acampar e conversamos sobre acampar lá ou subir até o topo. Achei melhor ir direto ao topo, pois ficaria muito puxado para o domingo se fossemos subir 430 metros no domingo e descer tudo. Também teríamos que subir no sábado ao topo para buscar água, logo não era negócio acampar ali e fomos em frente.

A descrição da trilha feita pelo Augusto foi crucial, pois comparávamos as fotos que ele disponibilizou e líamos as suas dicas. Uma coisa importante é que tinha marcas em algumas árvores com fitas amarela indicando a trilha; porem elas estavam apenas em partes da trilha. Suei tanto durante a subida que o descritivo e um mapa da Ilhabela ficaram encharcados e se desfizeram quando chegamos no pico. Tínhamos duas cópias da descrição.

O senso de orientação do Manú foi muito importante, pois além dele achar a trilha quando ficávamos distante e eu ficava indeciso quanto ao caminho a seguir eu gritava e me orientava pela sua voz. Nestas horas eu pensava SANTO FAROL MANÚ.

A subida foi ficando mais inclinada e fui sentido que a minha água estava acabando e passado pouco tempo ela de fato acabou e ainda tínhamos umas 3 horas de caminhada pela frente. Eu suava direto e algum tempo depois tomei um pouco do gatorade do Manú – eu acho que foi um gole e ele diz que foi metade do Gatorade : percepções interessantes a de “quem recebe” e a de “quem dá” !!!

A partir dos 1100 metros você tem que se arrastar várias vezes pelo bambuzal e caminhar muito.

Eu que estava super-cansado e não bebia água há algum tempo, estava rezando para chegarmos logo ao topo.

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sede

Uma das coisas que começou a nos preocupar foi escurecer e não termos conseguido chegar ao local de acampamento

Houve um momento em que estava na mata e vi literalmente uma garrafa de água vazia pendurada em uma árvore! Pensei – “puta chegamos ao local de acampar e eu vou descansar”, mas depois não vi mais a minha garrafa. Falei da garrafa ao Manú e ele falou você tá delirando cara !! Eu, insistia “mas eu vi”.

Ainda tínhamos meia hora para chegar ao local de acampar e lá sim de fato havia várias garrafas penduradas e eu pensei foi esta garrafa que eu vi. Mas estava muito longe e no local tinham três garrafas penduradas e todas diferentes da que eu havia visto !!! Mas eu tenho certeza que a garrafa está lá e um dia volto para pegá-la.

Finalmente chegamos ao topo às 18:30 e estávamos caminhando desde cedo. Quando chegamos foi aquela alegria de tirar mochilas das costas e se esticar no chão e é claro tomar o resto da água de coco do Manú; nova discordância iria surgir depois: ele dizendo que eu havia tomado 1/3 de 1 litro da água de coco dele e eu falando que havia tomado algo próximo a um copo !!!

Após tomarmos nossa aguinha de coco fomos buscar ÁGUA para beber, cozinhar, se lavar e o que achamos : a bica na pedra SECA, não tinha um pingo de água e somente um monte de garrafas vazias que deixaram lá.

Voltamos para montar a barraca e se preparar para realidade de que sem água não teríamos janta e teríamos que comer lanches.

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O local onde se arma a barraca é praticamente ao lado de uma grande pedra que é de fato o ponto mais alto da ilhabela. Importante destacar que cabem poucas barracas e estas tem que ser pequenas.
Fomos à pedra que é o topo efetivo e lá o Manú acionou o seu GPS e apareceu 1375 metros. Fomos mais duas vezes lá para ver o visual noturno e dava para ver as luzes da vila na Ilha e as de São Sebastião.

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Apesar de cansados ficamos jogando papo fora até meia noite e combinamos de sair bem cedo para chegar lá pelas 14 na cachoeira. Nova discordância : o Manú queria cozinhar na cachoeira e eu preferiria comer na cidade e acordamos de cozinhar na cachoeira.

Estava ventando um pouco e eu rezava para chover e colocava as panelas fora da barraca, mas a chuva que eu queria não veio e caiu apenas algumas gotas á noite. A minha vontade era de lamber os 5 pingos na panela, mas achei que o esforço não valia a pena pois não havia nada lá !!! O Manú queria que não chovesse, pois achava que a trilha ficaria pior com o sumiço das pegadas !!!

Um outro ponto interessante é que havia uma toca grande perto do local de acampamento e o Manú disse ter ouvidos barulhos perto da toca; conversamos um pouco sobre quem seria o nosso vizinho e como eu ouvi um miado achei que era um gato do mato; mas também achamos que poderia ser uma paca ou uma capivara. Uma coisa tínhamos certeza o bicho era grande pelo tamanho da toca !!!

A noite foi tranqüila e estava fresca. Ás 5 horas acordei e fui ver o sol nascer. Chamei o Manú que pediu para gritar para ele quando surgisse o primeiro raio.

Passados 40 minutos os raios começaram a aparecer e chamei-o e em pouco tempo ele estava sentado na pedra comigo olhando o nascer do sol. O nascer do sol é sempre uma coisa surpreendente apesar de ocorrer todos os dias.

Manú fez as suas orações, tirou algumas fotos e fez um comentário que me surpreendeu “ - as fitas amarelas eram para orientar a descida e não a subida, pois é muito mais fácil se perder na descida”. Fiquei surpreso, pois achei que poderíamos ter algum problema na descida, mas que seria bem menores do que os ocorridos na subida.

Desarmamos a barracas, arrumamos as mochilas, eu comi um lanche e começamos a descer às 7:20; diferente do dia anterior que estava nublado, o domingo prometia e de fato fez um forte sol aumentando os nossos problemas de falta de água.

Queríamos aproveitar a parte mais fresca do dia, pegar água a 800 metros e chegar a cachoeira às 14:00 de forma a não sofrermos tanto durante a descida.

Na área do acampamento, antes de sairmos lambi e passei os dedos em algumas folhas que tinha um pouco de água acumulada da noite. Quando achava um pouco mais de água em alguma folha oferecia ao Manú que não aceitava, pois achava que não precisaria ou que era pouco higiênico.

Não fazia nem duas horas que estávamos descendo e a previsão do Manú se confirmou, pois já havíamos nos perdidos algumas vezes.

Lá pelas 10:00 estávamos com muita sede e encontramos um caiçara e o Manú perguntou se o cara tinha água e contou sobre a nossa situação.

O Ivan – caiçara- disse que tinha pouco, mas que podíamos tomar pois estávamos precisando mais do que ele; ao vermos que ele tinha uns 200 ml de água recusamos e ele insistiu e disse que ali estava cheio de água, que ele iria pegar daqui há pouco e que iria jogar fora caso o Manú não quisesse. O Manú não tomou e eu sim.

Ivan mostrou-se surpreso com o fato de termos chegado ao pico na primeira vez que fomos fazer a trilha, pois disse que a trilha era muito difícil e que não verdade eram mil trilhas e caminhos e que se perder seria somente questão de tempo.

Manú pediu para o cara mostrar onde tinha água, mas ele disse que não podia de jeito nenhum, que daria água mas onde “tinha água era segredo de caiçara”.

Confirmamos que o caminho que estávamos fazendo era o correto e seguimos em frente sabendo que o Ivan tinha tirado todos os vestígios que poderiam nos ajudar a seguir a trilha. Na verdade o que ocorreu com o saco de dormir estava envolto em um saco de plástico azul e foram ficando pedaços de plásticos pelo caminho, como disse antes. Ele nos perguntou se nos havíamos deixado às marcações e falamos que se ficou marcado foi acidental e não proposital. De qualquer forma percebemos que não teríamos mais as fitas amarelas para nos orientar na volta. Separamos-nos do Ivan e eu continue suando muito e em pouco tempo já esta com sede de novo.

Creio que estávamos a 900 metros, ou alguma coisa assim, e eu já estava com uma puta sede e enquanto ia andando achava folha com água e ia bebendo ou passando na testa para refrescar. A língua já estava totalmente seca. Além da sede, continuávamos nos embrenhando em lugares que não tinha como passar e tínhamos que retornar para a trilha para ver alguma entrada que não tínhamos percebido.

Eu deixava o trabalho de batedor para o Manú, não porque não gostaria de fazê-lo, mas porque acreditava que ele o faria melhor e em muitos momentos eu não conseguia mais andar queria mesmo era descansar.

Continuamos descendo e passamos por uma grande poça de água parada. O Manú falou - você encara beber ? Perguntei que horas achava que íamos chegar à cachoeira e ele disse que tinha mais duas horas ou algo assim e eu disse vamos embora.

Andamos por mais uma hora sem avançar muito e o Manú encontrou uma poça de água e perguntou o que eu achava ? Era água parada com sujeira, mas que parecia pura. Vamos beber ou não ? Não tínhamos certeza da hora que chegaríamos à cachoeira e estávamos com uma sede terrível, então disse que sim, que coaríamos, ferveríamos, colocaríamos hidrosteril e beberíamos.

E foi o que fizemos : coamos meio litro de água marrom com uma camiseta e fizemos os outros procedimentos acima e resultou em 2,5 canecas de água parecida com chocolate ralo.Tomei uma caneca e o Manú, que não havia tomado a água do Ivan, tomou o resto. O Manú achou que o gosto era de mel que por causa da língua seca e eu achei que tinha gosto de chá ruim, tipo habuchá ( chá macrobiótico).

O chão também era muito escorregadio por causa das folhas secas no chão e eu tomei vários tombos. Em uma das vezes eu rolei por uns 5 metros e só não me machuquei porque cai em cima da minha mochila. Em um destes tombos eu perdi um dos bastões – que droga era novinho e só tinha usada uma vez no Peru na Cordilheira Huayhuashi.

Eu estava com fome e fui comer um pedaço de lanche. A minha língua estava totalmente seca e como não tinha nada de saliva o pedaço de lanche virou uma bola seca na minha boca que era impossível descer; cuspi tudo fora. O que me ajudou foi o repositor energético que é meio liquido e age rápido. Com isto tive um pouco de energia para continuar. Tomei uns três neste dia. Oferecia ao Manú que não quis, pois disse que teria piriri se tomasse.

Passou mais um tempo e era 14:00 horas e estávamos prosseguindo muito lentamente e o Manú começou a falar que estava com dores e urinando escuro. Eu, é obvio, fui falar que ele devia ter tomada a água do Ivan. De vez ema quando o Manú acionava o GPS para ver a plotagem de trilha que havia feito na subida e foi importante para descermos, mas não impediu que nos perdêssemos várias vezes !!!

O Manú desceu uns 10 metros para ver uma trilha voltou e disse que a trilha não continuava, mas que tinha um pouco de água lá embaixo e se eu não podia pegar.

Eu, como não tive sensibilidade de perceber o estado do Manú falei – Pô, você estava lá porque não pegou ? E ele disse que não tinha pensado na hora. Eu estava um caco só e pedi para ele esticar a mão e pegar uma caneca na minha mochila e só percebi o estado da coisa quando ele falou – “ desculpa, mas eu não consigo. Eu estou muito mal”

Neste momento a ficha caiu, pois para mim o Manú era duro como rocha, peguei as coisas e fui buscar água. Acho que peguei em torno de 1 litro e pouco. A água era corrente, mas era um fiozinho que você tinha que pegar raspando com caneca.

Assim que enchi a primeira garrafa já coloquei o hidrosteril para ir ficando bom para o Manú. Tendo enchido a outra garrafa subi para levar a água e enquanto subia só vi a caneca rolar morro abaixo e deve estar lá até agora. Sei que deveria ir buscá-la, mas faltaram forças.

Coamos a água e bebemos. O Manú se sentiu renovado com a água e eu mesmo com esta água estava tão arriado que o outro bastão caiu na minha frente, me distrai e depois olhei, olhei de novo e não vi mais o bastão. Eu sabia que o bastão estava ali na minha frente, mas eu simplesmente não conseguia vê-lo. Este bastão também já tinha se partido na parte da manhã, mas ainda dava para usar.

As minhas luvas só deus sabe onde eu as deixei cair, de forma que tive que começar a me apoiar nas árvores para descer, pois o chão era superescorregadio e inclinado em muitas partes. Eu literamente escorreguei de bunda em vários momentos para poupar energia.

Continuamos caminhando e em vários momentos o Manú se distanciava e eu saia da trilha e começava a chamá-lo para ver que direção ele tinha ido e seguir a mesma. Em alguns momentos eu achava que não conseguiria chegar até onde ele estava e em outros achava que iríamos ter de passar a noite na mata. Creio que o Manú deva ter ficado decepcionado e puto com a companhia em alguns momentos, pois em muitos momentos eu me sentia dependente dele e até me dei ao direito de ficar puto com ele pois o “cara tinha ligado o turbo e me deixado para trás”. Mas foi injusto de minha parte, pois o Manú voltou várias vezes para me sinalizar o caminho e me esperou centenas de vezes. Também sei que várias vezes o que o Manú espera encontrar era ação de minha parte e o que encontrou foi prostração. Desculpe Manú !!!

Mesmo com a água que tomamos eu estava exausto, tinha perdido a confiança que iríamos dormir em São Paulo e quando estávamos descendo para a cachoeira dos três tombos, creio que estávamos a uns 550 metros e a cachoeira está nos 320 ( +-) olhei na mato e vi um fusca prata bem longe. Pensei “ acabou, os caras vêem de carro até aqui; em 15 minutos nos estamos dentro da cachoeira. Eu olhei mais uma vez e o carro estava lá gritei para o Manú e ouvi - Você tá delirando !!!!
Pensei - será ? Olhei de novo e não tinha mais carro nenhum !!! Putz, o que eu tinha visto eram folhas brilhando no meio da mata. Nesta hora pensei a coisa ta ficando feia !!!!

O pior é que estávamos tão perto da cachoeira, ouvíamos o seu som, e quando chegávamos perto da margem do rio não dava para descer por causa das pedras.

Estávamos andando perto de um bambuzal quando o Manú deu um berro e ficou gritando – Meu olho, meu olho, entrou um galho no meu olho !!!

De fato entrou um galho no olho dele que ficou imediatamente irritado. Dei uma olhada, mas não fiquei muito preocupado pois já tinha ficado com o olho parecido quando havia ido mergulhar na Ilhabela.

O Manú ficou superpreocupado, pois disse que era um galho que tinha entrado no olho e eu disse que galho eram limpos ! Dias depois, ele me falaria que o oftalmo disse que ele fez muito bem em lavar o olho com colírio assim que chegou a São Paulo pois galhos são infestados de fungos e poderiam se proliferar trazendo problemas sérios para a visão. Neste momento me lembrei que quando fui fazer a travessia Petro- Terê tinha um cara com um óculos transparente e que provavelmente usava para não ter problemas como estes.

Passados alguns minutos de inspeção ocular seguimos em frente. Continuamos descendo e se perdendo, creio que a falta da água ajudou muito, e lá pelas 15:30 encontramos o Ivan novamente que nos indicou a direção / sentido. Caminhamos uns 5 minutos juntos e ele disse que iria para o outro lado ( Praia do Portinho) e que poderíamos ir com ele caso quiséssemos, mas que a Cachoeira estava bem perto.

O Manú falou que íamos até a Cachoeira e Ivan disse – Assim aprende o caminho. É verdade mesmo, que é a primeira vez que vocês vem aqui ?

Aproveitou para falar que guiava trilhas, dar mais uns sustos falando de caçadores, mas também deu uma dica super-importante ao falar que quando encontrássemos a mangueira na trilha não podíamos segui-lá, que devíamos pular por ela e entrar a esquerda ( trilha sem mangueira) . Se seguíssemos a mangueira iríamos para o outro lado. Nos despedimos com a informação que estávamos a 40 minutos da cachoeira.

Ainda penamos um pouco mais finalmente chegamos à cachoeira. Como ficamos felizes ao tirar os calçados e sentar com os pés dentro do rio. Enchemos garrafas de água e colocamos hidrosteril para esperar os 15 minutos. Não deu para esperar e com 5 minutos já estávamos nos empanturrando daquela coisa mágica chamada água. Eu pegava uns potes plásticos enchia de água e jogava na cabeça, nas costas, nas pernas. Eu fiquei uns 20 minutos fazendo isto e cada pote de água que escorria em meu corpo era simplesmente divino de tão bem que fazia. Primeiro fiz isto sem camisa e depois com camisa, pois os borrachudos não respeitam caminhantes sedentos.

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Eu tomei 1,5 litros de água enquanto estava lá sentado e tome água nas costas e o Manú tomou 1 litro.

Eu queria ficar ali por muito mais tempo, mas já estava ficando tarde e tínhamos que seguir em frente, pois ainda tinha um pedaço de trilha pela frente e 350 metros de descida.

Pegamos a mochila e um pouco de água e continuamos descendo a trilha e chegamos em umas pedras ao lado do rio. Falei para o Manú – Nos não passamos por aqui Manú ?

- Claro que passamos, como você não lembra ???

Eu simplesmente não lembrava e não me lembro até agora.

Um pouco mais a frente falei a mesma frase – nos não passamos aqui ! e descemos mais um pouco e chegamos em uma parte da mata que não tinha trilha e era um mata fechada com bambus e eu tinha certeza que não tínhamos passado por lá. Tentamos vários caminhos e já estava bem tarde o que começou a nos causar um pouco de apreensão.

Falei para o Manú - vamos ver a descrição do Augusto, e o cara falava que a estrada de asfalto tomada pela mata estava a 5 minutos da cachoeira; logo a trilha não poderia ser por aí.

Voltamos pelo caminho que fizemos e achamos a continuação da trilha; quando você acha o caminho, você pensa como é que eu não vi isto !!! Mas é assim mesmo, você não vê mesmo !!!

Achado a trilha certa fomos bebendo água e em pouco tempo estávamos de volta a civilização : estrada de asfalto.

Quando chegamos a estrada de asfalto, nos sentamos no chão para descansar um pouco ao lado de uma antiga caixa dágua vazia. Eu já não tinha mais água e o Manu me deu algumas castanhas. Tentei comer e eu ainda tinha a língua seca, novamente se formou aquela paçoca impossível de ser digerida e eu cuspi tudo fora.

Alguns minutos de nos sentarmos, passamos por um casal de caiçaras de moto e o cara perguntou de onde vínhamos e ao ouvir eu falar que tínhamos passado a noite no pico de São Sebastião ele disse - VOCÊS SÃO LOUCOS !!!!!!!!!!!!!!!!!

Celestino Lourenço – ZICO

Obs. 1) Os dados da trilha de São Sebastião descritos neste texto não são precisos e não deve ser usado como um guia para a mesma. Quem tiver interesse em fazer a mesma trilha sugiro que entrar no blog do Augusto agsts.multiply.com que tem uma bela descrição da trilha com fotos e que utilizamos para fazer a subida ao Pico de São Sebastião

2) Celestino Lourenço – Zico e Manuel Tak – Manú fizeram o CBM no 2º semestre de 2007

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Um comentário para “ Vocês são loucos !!! Pico de São Sebastião (ilhabela) ”

  1. em 27 de Novembro de 2008 @ 10:46 1.Belo disse:

    Zico e Manu,
    Legal ver que depois do CBM continuam animados
    Que os erros desta caminhada (pouca água) sirvam como lição para as próximas que certamente virão.

    E depois que terminou… Vai falar que não valeu a pena todo o perrengue ? :-)

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