Relatos de saídas admin em 03 Jun 2009
¡Eu tenho medo da Dutra!
por Laerte Camargo
Escrever sobre uma saída para a montanha pode ser uma tarefa sem grande criatividade, o que eu poderia dizer sobre a saída entre os dias 23 e 24 do mês de Maio do ano de 2009?
Bom saímos de São Paulo, ao lado do metro Vila Mariana, às 5h e algumas quirelas, apesar da previsão ser 4h40m (uma observação: pela primeira vez fui o primeiro a chegar). Fomos em uma perua alugada, com motorista, sendo que o Filhote ia nos acompanhar de carro. Saímos do metro sem a presença ilustre do Filhote que acabou nos encontrando já a caminho do Marins.
Creio que uma saída para a montanha não deveria incluir a figura de um motorista de perua, a não ser para dizer que ele levou e trouxe todos sãos e salvos, mas este rapaz mostrou-se uma figura ilustre na saída (em breve as suas proezas serão descritas).
Bom fomos pela Rodovia Dutra, chegamos sem grandes problemas, apesar de termos passado a entrada de Piquete (o que nos obrigou a realizar um retorno e é claro gerou um bate boca dentro da van). Chegamos ao estacionamento do Marins 10h28m, não mais que 10h45m já estávamos com as mochilas nas costas e seguindo em direção ao Marins.
Creio que este seja o momento propício para apresentar os montanhistas: eu (Laerte), Renato “Kbello”, Sergio Robles, Marcos Preto, Lukas “Filhote”, Wagner, Sylvio Jr, Simone, Marcelo, Cristiane, Kei, Kazu e a Renata. Não vou me ater a ordem ou quem guiou porque foi um
revezamento constante (creio que ia para frente o que estava com mais vontade de terminar logo a trilha).

A subida foi muito boa, fizemos apenas 1 parada no Careca e outra no meio da subida, além de um pequeno perdido que o grupo que estava na frente teve (eu, o Robles, o Kbello, o Marcelo, a Cris e o Filhote).
Antes das 13h já estávamos na base do Marinszinho almoçando. Não estávamos sozinhos, mas a quantidade de pessoas não chegava a causar transtornos ou diminuir o nosso ritmo (talvez tivéssemos demorado mais próximo a base do Marinszinho, se a moça que estava em prantos já não estivesse sendo consolada, afinal tinha uma boa quantidade de pessoas ali querendo realizar esta árdua tarefa).
Depois do lanche, com seu desfile de tapawers (o do Marcelo não era um tapawer, era uma caixa, nunca vi isso!), reabastecemos a água e seguimos. Dali para frente não fizemos mas nenhuma parada em grupo, subimos o Marinszinho, descemos o vale e subimos novamente em direção a Pedra Redonda. O grupo neste momento se separou em dois, na frente os ilustres senhores: Kbello, Wagner, Kei, Marcelo e eu, e no segundo o resto do pessoal - a distancia variou um pouco, mas nada que passasse de 10 minutos.
Batemos na Pedra Redonda às 15h45m, a nossa previsão de chegada era 16h (putz, como somos bons!). Dali para frente descemos em busca do ponto de acampamento, o discurso do Kbello de que o acampamento era na Pedra Redonda estava um pouco equivocado, descemos uma bela ribanceira para chegarmos a um ponto de acampamento já ocupado, creio que mesmo que estivesse livre não
teria espaço suficiente para todas as barracas.
Ali o pessoal acampado disse que havia um ponto de acampamento 30 minutos a frente! Bom andamos 30 minutos e depois mais 30 minutos e depois mais 30 minutos e nada… Neste ponto já estava escurecendo e começou a esfriar consideravelmente.
Depois de uma rápida parada para nos equiparmos para a nova condição climática e com as headlamps na cabeça partimos. O terreno ficou mais agradável de andar e começou a pipocar lugares para acamparmos, 1 lugar, 4 lugares e finalmente a terra prometida: um belo campo aberto com lugar para umas 8 barracas com sobra!
Começamos a montar as nossas barracas enquanto o grupo que vinha atrás chegava. A partir daí foi tranqüilo: monta barraca, troca de roupa, coloca as coisas em ordem, faz a comida, come, vê o Filhote se degladiando com o fogareiro, o Sylvio Jr passando um frio velhaco, a Simone falando, o Wagner falando, o Kazu e a Renata quietos e por ai vai.

Ficamos um tempinho sentados e conversando, passando o tempo, eu não sei dizer que horas o pessoal começou a se recolher, mas devia ser em torno das 21h.
Não choveu, porém o vento também não deu trégua a noite inteira, a turma do Suunto disse que a noite deve ter batido uns 5 graus!
Amanheceu!!!! Mas nós não pegamos a viola, muito menos a colocamos na sacola e fomos viajar. Na verdade o tempo estava ridículo, a alvorada que podia ser em torno de 6h, acabou ficando para 7h e prontos para andar lá pelas 8h30m.

Com tudo branco, enxergar o Itaguaré nem pensar! Um pouco de trabalho para achar o começo da trilha, descemos no meio do mato errado, mas em 30 estávamos no caminho certo. Daí para frente a trilha não apresentou nenhuma dificuldade, descemos….. depois subismos….. ai descemos um pouquino e subimos mais um pouquinho e pimba!!!! Lá estava o Itaguaré.
Tomamos um lanche e teve um grupo de bem dispostos que foi fazer o cume: Kbello, Wagner, Filhote, Marcelo e Kei! Os demais, entre eles eu, começamos descendo a trilha. Perto do córrego no alto do Itaguaré cruzamos com o Paulo Coelho (viríamos a cruzar com a Helena logo depois da descida de pedras). O absurdo foi como encontramos o acampamento do Itaguaré: restos de arroz, casca de batata e bolo de fubá no chão, árvores cortas, marcar de fogueira e um enorme tronco no meio do acampamento - sinceramente uma verdadeira farofada!

Demos uma limpada, da melhor forma que podíamos, amaldiçoamos aquele povo um pouco e seguimos viagem.
A descida do Itaguaré não tem grande novidades, morro abaixo, com diversas erosões. O grupo que foi ao cume encontrou a gente na pedra que existe no meio da subida. Perto do fim da trilha parecia que havia passado um caminhão com a caçamba aberta derrubando tudo, por exemplo: o Preto encontrou pacote de bolacha - com bolacha dentro, além dos tradicionais: garrafa PET, papel e por ai vai, a turba que havia estado no acampamento deixou suas pegadas aqui também. Ao chegar no estacionamento o motorista da van (lembra dele?!?) já estava lá, e pasme a turba também: eram um moleques de Passa Quatro, estavam cozinhando lá, bêbados que nem gambá. Se
isso serviu para alguma coisa foi para agilizar a nossa saída daquele lugar. Encurtando a história: 14h30m já estávamos a caminho da roça.
A viagem de volta foi longa: 10 pessoas em uma van minúscula, acho que não teve 1 pessoa que não tenha ficado com os fundilhos quadrados, fora o tempo para chegar, como diria os espanhóis: ¡Mira! Chegamos no metro Vila Mariana 21h00m…
Bom… acho que o relato “montanhístico” é esse, resumindo para os mais impacientes: subimos, (descemos, subimos) x N e descemos. Todos se salvaram, ficaram felizes e pronto! Nada muito diferente de qualquer outra saída, trocando os nomes o relato pode muito bem ser usado em outras saídas, mas… a história não acaba aqui. As entrelinhas é que são o tempero da saída, então vamos ao molho…
Lembra que eu comentei sobre o motorista da van? Vamos pular a parte de como acabamos naquela van, não faz diferença, mesmo porque até já estamos de volta! Primeiro ponto: ele resolveu ir pela Dutra (por favor guarde esta informação também), uma estrada odiada por todos por causa de seus caminhões, mas por algum motivo amada pelo motorista - será que por causa da distância menor e economia no pedágio?
Tudo bem você vai dizer que é implicância nossa, até poderia ser se a missa já houvesse acabado: ele, pasmem, colocava a bendita da van na banguela - ISSO MESMO - na banguela. Aonde já se viu colocar o carro no ponto morto em plena rodovia, some a isso o fato dele não ter passado de 80 km/h a viagem inteira.
Não, mas ainda não acabou: quando chegamos na estrada de terra que leva até o Marins, em um dos pontos, descemos para que o possante pudesse subir. Ele simplesmente passou o ponto de pedras soltas e foi embora, ficamos ali, boquiabertos, correndo atrás da maldita.
Depois de alcançar ela novamente, subimos mais um pouco dentro daquela lesma lerda, até que chegou um ponto que tivemos que descer novamente. Para facilitar fomos andando até o estacionamento de uma vez… agora imagina a cara de felicidade do Robles!
Será que acabou??? É claro que não, na volta do Itaguaré também foi o mesmo problema, fizemos um caminho mais longo para que a van não sofresse avarias (palavras do próprio motorista: - “Este é um carro de trabalho e não um jipe”). Acho que não andamos nem 20 km e demoramos mais de 1 hora, mais de 1 hora! E a volta também foi na mesmo morosidade da ida, fechado em grande estilo com um transito básico para entrar em São Paulo. Hard concluiria isso em grande estilo: - “Ó céu, ó vida, ó azar!”
Agora descobrimos a versão feminina do Wagner, a Simone: a garota gosta de falar viu, mas fala mesmo, fala até dormindo! E curte um vinho também, ela curte tanto vinho que ela acordou com o Marcelo de fazer a TransMantiqueira, aonde o Marcelo vai levar um garra de vinho para cada dia (uns 3 galões fácil). Mas que fique registrado: a sua “inovação” de levar o vinho em garrafa PET causou entusiasmo no casal Cruz Maltino: Marcelo e a Cristiane.
Falando em casal, eu não ouvi a voz do Kazu e a Renata no acampamento em momento algum, cheguei a duvidar que eles estavam lá, são representantes da melhor estirpe dos ninjas montanhistas: silenciosos e letais!
E o estacionamento do Itaguaré! Nada como fazer novos amigos, não é Robles? O “líder” da trupe de Passa Quatro estava com a corda toda, quando eu estava dobrando a minha barraca o seu lindo pesinho veio direto amassá-la, e o Robles que teve que lidar com o cara querendo levantar a sua digníssima Mamut para saber o peso. Todos que conhecem o nosso cara colega chileno sabem a sua cara de entusiasmo, mas para aqueles que não conhecem: imaginem o desejo de um Everest caindo direto na testa do coitado, tudo isso expresso em um semblante.
Por falar em Robles, quero deixar registrado neste relato: quero só ver a saída deste pessoal para o Peru! O fato de termos perdido a entrada de Piquete já deu um “bate boca” com o Kbello, se eu não soubesse que eles se amam eu ia achar complicado.
Falando em amor, não posso deixar de citar Kei, o japonês “Don Juan de Marco”. Ele estava com a sua Solo com o ziper do peito aberto até o final, desfilando toda a sua elegância, todo seu charme. Eu sei que ele causou o maior furor lá, recebeu até elogios da alegoria feminina da nossa van. Ta bom já sei o que estão pensando: muito bonito isso, tudo acontece com todo mundo e nada com você. É verdade até agora eu não falei nada a meu respeito, mas veja não é para menos, se eu comentasse por exemplo que a Cristiane falou que eu era baixinho e mirradinho porque eu ficava carregando mochila quando era criança; ou se eu falasse que fui no lugar mais apertado da van só porque sou pequenininho; seria justo? Eu acho que não! Afinal eu passei um mal bocado no primeiro pit stop da volta.
Ao sairmos da infindável estrada de terra na volta do Itaguaré todos precisavam estivar a perna e utilizar as facilidades de um banheiro. Pois bem, depois de uma subida aonde até CG com 2 pessoas disparava na frente do nosso Barrichelo particular, chegamos a um posto BR. Nada de excepcional no posto, simples mas suficiente para as nossas necessidades, e não é que ao descer da van e fixar o olhar no crux daquela via, o banheiro, me para pelo menos 2 ônibus de excursão vindos de Aparecida: ai já viu, uma fila enorme, um local inabitável e um desespero de causa.
Bom eu acho que já enrolei bastante de quem eu falei falei, de quem eu não falei não falei e pronto!
Agora para você que talvez ainda não tenha reparado no título deste relato e se perguntado, afinal de contas o que Dutra tem a ver com tudo isso. Mantive o suspense até agora, mas vou elucidá-lo com um “q” de fábula infantil.
Era uma vez um montanhista, um cara batuta, daqueles que você olhe e fala, gente boa o figura; pois bem este montanhista já havia encarado diversas montanhas com mais de 6.000 mts, cursos, caminhadas, discussões, e quando perguntam o nome ele responde: -“Robles, Sergio Robles!”. Mas ninguém sabia que o demônio de seus sonhos, o Dick Vigarista de seus temores era ninguém menos que a Rodovia Dutra!?! Isso mesmo a Rodovia Dutra, quando informado que o caminho a seguir era pela Dutra ele estufou o peito e respondeu: - “Sabe do que eu tenho medo, eu tenho medo mesmo é de pegar a Dutra”!
Eu fico por aqui, e até a próxima saída, ou coisa que valha a pena escrever!!!
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