Relatos de saídas admin em 06 Out 2009
“Sudestiando” PARTE II
Por Ricardo Hideki Nonaka
Dando continuidade ao relato, segue abaixo as partes referentes à escalada do Dedo de Deus e da Agulha do Diabo.

Teresópolis
Dia 1 – Dedo de Deus
Após uma semana escalando no Rio de Janeiro, com a mudança de tempo, resolvemos ir para Teresópolis com o objetivo de escalar o Dedo de Deus e a Agulha do Diabo. Programamos subir o Dedo de Deus primeiro, pois conhecíamos a via. Dessa vez, apesar de termos levado duas cordas de 60m para o rapel, fomos mais leves. No dia seguinte, às sete da manhã, entramos na trilha. Uma boa dica para quem vai para o Dedo de Deus é estacionar o carro no restaurante da estrada. Além de ser um local seguro, você poderá vê-lo durante a escalada. Caminhamos pela trilha até o início dos cabos de aço. Para auxiliar os lances dos cabos de aço, levamos luvas de raspa de couro. Após passarmos os principais lances de cabo, erramos o caminho. Se você for para o Dedo de Deus e subir até uma pequena escada feita de corda, retorne, você passou da trilha certa. Sim, erramos novamente nesse ponto, como na primeira vez! A trilha para o Dedo de Deus segue para a direita após os lances principais de cabo de aço. Corrigido o erro, seguimos a trilha. Um pouco antes do início da via, havia um lance exposto que passamos com a colocação de um “friend”. Chegando de fato no início da via, mandei a primeira cordada até a gruta. A gruta é o local onde a via ramifica-se na via Maria Cebola e Blackout. A Maria Cebola é bem interessante porque o lance, apesar de ser bem protegido por grampos, é bem aéreo. De lá é possível conferir se o carro ainda está no estacionamento. Como já conhecíamos a via Maria Cebola, decidimos ir pela Blackout. O Victor mandou esse lance. A passagem na fenda estava escura, mas clara o suficiente para conseguir ver uma camada de fezes de andorinha capaz de fazer qualquer um escorregar, principalmente, se estivesse com uma sapatilha de escalada. Então, escorreguei… Como a fenda é estreita em algumas partes, lembro de ter tirado e arrastado a mochila em alguns trechos. Depois desse lance, entrei para guiar a próxima cordada, a primeira chaminé. Comecei a guiar e, depois de alguns metros, montei uma parada em um grampo que ficava em cima de uma grande pedra prensada na chaminé. Fiz a segue para o Victor e concluímos que a parada ideal seria no final do próximo lance. Entrei novamente e mandei a cordada até a parada “certa”. Esse lance é bem interessante porque a via sai da chaminé e segue até a borda da rocha, de onde novamente é possível conferir se o carro ainda está no estacionamento. É um lance exposto, mas bem interessante. O Victor mandou a cordada seguinte, uma outra chaminé, até antes do “crux”. “Mandei” o “crux” com o “auxílio” da costura e, logo em seguida, fiz a segurança para o Victor que guiou até o início da próxima chaminé. Depois de ter mandado esses lances, concluímos que para facilitar e ganhar tempo o ideal é parar antes do crux e depois mandar até a próxima chaminé. De lá o Victor entrou na próxima chaminé que culminava no pré-cume do Dedo de Deus. Subimos a escada de ferro e fizemos o cume às duas da tarde.
A escalada do Dedo de Deus é muito especial. O visual de toda a via impressiona e as passagens dos lances nas chaminés são únicas. E, do cume, você ainda tem uma última chance de conferir se o carro ainda está no estacionamento do restaurante! Assinamos o livro, aproveitamos o visual, comemos o lanche e começamos a descida. O rapel do Dedo de Deus é feito pela via do Teixeira. São 5 rapéis possíveis de serem feitos com apenas uma corda. Sim, levamos uma corda extra sem necessidade. Bom, já que levamos, usamos as duas. Lembro que, na vez passada, precisamos de duas cordas. Acho que o rapel foi otimizado desde então. O primeiro rapel é o mais complicado pois a corda pode entrar na fenda e ficar enroscada. Por isso, o ideal é rapelar pela parte de fora da rocha e parar em um grampo na base. E a luva de raspa de couro. Compramos uma luva estranha. Não sei qual foi o molde que os fabricantes usaram como modelo pois elas não serviram em nossas mãos. Mesmo assim elas foram muito úteis. Usamos as luvas enrolando-as nos cabos de aço para controlar a descida. No final, foram bem práticas e agilizaram a descida. Não lembro do tempo, mas descemos e chegamos bem rápidos na estrada. De uma forma geral, a escalada foi perfeita. Paramos na estátua da santa que fica na estrada para descansar um pouco e de lá fomos até o carro - que ainda estava no estacionamento.
Teresópolis
Dia 2/3 – Agulha do Diabo

Depois de voltarmos do Dedo de Deus, começamos a nos preparar para a Agulha do Diabo. Como não conhecíamos a trilha e por ser longa, decidimos acampar para atacar o cume no dia seguinte. O Victor conseguiu algumas dicas da internet e as 11:30 do dia seguinte começamos a trilha. A trilha é a mesma da travessia da Serra dos Órgãos ou Petê-Terê. A caminhada é tranqüila. O ponto de referência para sair da trilha principal é uma grande rocha na cota de 2.000 metros, logo após um mirante. Descemos por essa trilha secundária e seguimos em direção ao Vale das Orquídeas, local do acampamento. Lembro que um pouco depois de quebrar à direita na trilha, após uma seqüência de bambus, a trilha passava por uma mata mais fechada. Nesse momento, ouvi um barulho e, ao olhar para trás, vi uma coisa vermelha vazando na mata. Era o Victor levando a maior vaca na trilha. Ele caiu uns bons metros e foi parar em um ponto de difícil acesso. Depois de algumas tentativas, ele conseguiu voltar para a trilha. Resultado: braços ralados e parte das articulações dos dedos detonadas. Considerando a queda e a mata ao redor, ele teve muita sorte de não ter sofrido nada mais grave. Depois desse susto, caminhamos até chegar no local do acampamento. O local é adequado para acampar pois é protegido e fica ao lado de um ponto de água. No dia seguinte, as 06:00, começamos a desfazer o acampamento e entramos na trilha em direção à Agulha do Diabo. De acordo com as dicas, a trilha deveria ser tranqüila mas, na prática, foi mais longa e puxada do que esperávamos. Erramos a trilha no início e fomos parar no Mirante do Inferno. Sim, do inferno! O visual desse mirante impressiona e até assusta pois do alto tem-se uma visão completa da Agulha do Diabo, com um vento intenso, e a impressão de que a trilha até a sua base levará horas de caminhada.

Felizmente, encontramos a trilha certa que seguia à esquerda da trilha que levava ao mirante. Ou seja, você não precisa ir até o mirante e ter a estranha sensação de que vai ser mais difícil do que você pensava. A trilha certa descia por uma “canaleta de pedras” e subia novamente por uma outra canaleta, em direção à Agulha. Encontramos o início da via após o final da canaleta. Mandei a primeira cordada que era de aderência. O Victor mandou o segundo lance, que era uma travessia, e montou a parada em uma árvore. Entrei no terceiro lance mas segui pela via errada. Tudo indicava que a via seguia pela parede de rocha, mas o caminho certo seguia por uma trilha à direita da árvore da parada - que estava coberta por mato. Fomos descobrir isso depois, com as dicas de dois escaladores que encontramos mais tarde na via. Bom, acabamos dificultando a via em uma passagem que não permitia uma boa proteção e perdemos quase uma hora. Lembro que nesse momento comentamos: se os lances iniciais são mais fáceis e estamos tendo dificuldade, como será nos lances mais complicados? Enfim, depois dessa cordada, o Victor mandou o lance seguinte que era uma longa travessia, chegando na base das chaminés da “unha”. O Victor entrou na enfiada seguinte e mandou o lance sem saber que se tratava da primeira chaminé! Mandou sem problemas e fomos parar na base que dava para a passagem do “cavalinho”. Nesse momento uma dupla de montanhistas nos alcançou. Eram os escaladores Maicou e Arnaldo, conhecidos escaladores cariocas que só fomos ter conhecimento da importância deles no montanhismo após vê-los no guia de Salinas, do Tartari. Com a experiência de longa data na Agulha do Diabo, os dois passaram algumas dicas como, por exemplo, o melhor posicionamento do corpo na chaminé da unha. No final deixamos eles passarem para não atrapalharmos o ritmo deles.

Eles iniciaram a trilha do parque as 07:30 e nos alcançaram por volta do meio-dia! O Victor mandou bem o lance do cavalinho, que é protegido por apenas um grampo. Aparentemente o lance não é complicado, mas uma queda não é nada boa por causa do pêndulo. Então, o psicológico pode ser afetado… O lance depois da passagem do cavalinho é a chaminé da unha. Mandei a chaminé lembrando das dicas que o Maicou passou. O lance impressionou por causa da exposição mas, após entrar na via, essa sensação desapareceu rápido. A chaminé da unha é uma chaminé que permite os movimentos clássicos desse tipo de escalada. Ou seja, é segura. A parada é feita na ponta da unha, em dois grampos, onde inicia o cabo de aço que leva ao cume. O Victor mandou o lance primeiro e fez o cume as 14:00, quando a dupla da frente já estava descendo. E, nessa hora, mais uma dica. Da parada na unha, recomenda-se rapelar usando apenas o grampo mais novo para não ter problemas com o cabo de aço que passa pelo outro. A descida é feita por cinco rapéis com apenas uma corda, seguindo a via de escalada e cortando as travessias. Após chegarmos na base, voltamos até o acampamento, pegamos as mochilas cargueiras e seguimos a trilha até o estacionamento do parque. Embora seja em uma descida, a caminhada de quatro horas da volta foi bem cansativa. Mas foi tudo muito gratificante. Com exceção da queda do Victor na trilha, a logística planejada foi certa e completamos a escalada na Agulha do Diabo com sucesso. Não poderia ter sido melhor.

Dentro de breve iremos trazer o relato da Serra do Cipó e da CERJ.
Abraços.
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