Atacama 2012 – Entre Pedaladas e Escaladas

por Marcelo Campos

Tudo começou em dezembro de 2011, quando durante uma expedição ao Nevado Tres Cruces (6749m) , onde numa expedição com 4 pessoas, incluindo 2 sócios do CAP (Cris e Abdalla), nem conseguimos chegar perto da montanha devido o Inverno Altiplanico – evento que castiga o deserto com tempestades de neve em pleno verão.

Lá , após me encantar com a região e fazer planos para a volta,  conheci o Jaroslav Bartos, um montanhista Checo com vários 8000m  nas costas e que com sua bicicleta, buscava escalar o maior numero de 6000m possível nessa inóspita  região, conhecida como Puna do Atacama….a maior concentração de 6000m fora do Himalaia.

Já durante o ano, após algumas conversas por internet, o próprio me convida a passar uns dias em seu pais, mais precisamente em Trutnov,  pequena cidade cercada por montanhas !!!

La, durante algumas escaladas, comentei com ele minha ideia de fazer uma expedição similar….pegar minha bike, e subir o máximo que puder!! então ele vem com a seguinte frase: isso foi uma das coisas mais duras que já fiz na minha vida de montanha!!!!

De volta ao meu novo pais, Chile….segui remando e escalando alguns vulcões pelo Sul…nada tão alto. Meses iam passando…verão se aproximando e a necessidade de sentir a altitude, de subir alto me acompanhava.

Então pensei: Poderia ir ao Atacama e fazer um monte de 6000m!! Logo, me vem as lembranças de Jaroslav Bartros ! E penso :  ele foi e voltou, acho que posso ao menos tentar isso!!!

já estava lá´ por setembro, quando sim, decidi que era isso que eu ia fazer!!! Comecei a correr atrás de apoio e a juntar as infos que tanto necessitava para passar pela região mais seca do mundo em bike, escalar o vulcão mais alto do mundo e voltar vivo !!!!

Se passaram dois meses e consegui um incrível apoio, CONAF ! Sim, os guarda parques iam me ajudar com logística de agua e monitorando meus sinais de GPS para qualquer emergência!! Ou seja, tinha uma forma eficiente de comunicação que me daria boa segurança.

Outro importante apoio, um amigo peruano com sua empresa de Ovos em pó (OVOSUR Chile) me forneceu porções de seis ovos por dia desidratados e mais uns saches de clara para colocar em sopas sucos e  para toda expedição!! Proteína da mais alta qualidade e o melhor de tudo, super leve!!

Eu, bike e o carrinho de carga levaríamos  aprox 30kg de carga, e ainda faltavam os 12 litros de agua que planifiquei carregar todos os dias durante a aproximação ao Ojos e a região…..tomava 6 litros, e a prioridade era encontrar agua e encher os 12 novamente!!

Chega novembro! Passo a semana do meu 31 aniversario treinando longas caminhadas com pouca comida e pouca agua no Vulcão Antuco, distante alguns km da minha casa em Valdivia.

Pelo meu histórico no remo de precisar desidratar para chegar no peso em competições, senti que tolerar a sede não seria um problema no Atacama, mas me preocupava o quanto isso afetaria minha aclimatação.

No fim da primeira semana de novembro, mais 3 sócios do CAP (Sylvio, Cris e Tercio) se juntam a mim para uma  expedição ao Vulcão Planchon…que não chega aos 4000m, mas que usei novamente como treino para tolerar pouca comida e agua.

Acabamos essa expedição e diretamente me dirigi ao norte…..sim, dia 22 de novembro estava muito próximo!!! O dia em que sairia de Copiapo (aprox. 500m) e me dirigiria a Puna de Atacama (4000m) e de lá, tentaria subir ao menos 10 montanhas acima de 6000m em um período de 50 dias !! Algo interessante!!!

após a reunião com a CONAF definindo planos de emergência e vamos a casa de meu amigo Niko…começo a colocar a carga no carrinho  e nos saludamos!

Os primeiros dias o calor castigava….sem sombras, pouca agua, sem pessoas a vista mas com todos os procedimentos sendo bem executados e criando uma boa rotina que me dava segurança.

Em 4 dias já pedalava acima dos 4000m e me sentia muito bem aclimatado. Me sentia forte, apesar de usar comida liofilizada, que não estava me satisfazendo muito bem.  Agua, que nos 4 primeiros dias me foi um problema , já na era tanto pois a CONAF me deixou um estoque no Refugio Laguna Verde, e as expedições que desciam do Ojos del Salado deixavam suas aguas, comidas e tudo mais pra trás….eu logicamente, no estilo mendigo, aproveitava tudo que as outras expedições não queriam mais….assim, fui melhorando meu cardápio, incluindo frutas e legumes que eles levavam !

Após 20 dias, quando me sentia perfeitamente aclimatado e forte, começo minha empreitada e em um dia escalo o Viicunas (6067m)….dois dias depois descia do cume do Barrancas Blancas (6119m) e seguia com muito boa recuperação física e psicológica.

Descanso dois dias e encontro um  amigo, Mario Sepúlveda, montanhista chileno com tentativa de cume do Kanchenchunga (8586m) e que trabalhou 7 anos no Refugio Atacama, e lá, fez nada menos que 39 vezes o cume do Ojos del Salado (6893m) !! Me convida a comer com ele e seu cliente russo, depois escalar o San Francisco, e por ultimo se juntar ao cronograma deles e ir ao Ojos juntos!!

Gostei da ideia, e no dia seguinte, feliz com a ótima companhia que teria nos próximos dias, pedalei e me juntei a eles  em Laguna Verde. De lá, fomos em carro a base do San Francisco, com seus 6016m!

Subimos e descemos bem a montanha!! Superamos quase 1000m de desnível em menos de 3h na subida.

Eu já podia ver meu maior desafio logo ali, com seus 6893m bem na minha cara !! após definir minha estratégia, fui dormir a 5800m e de lá atacar o cume, nos separamos,   pois eles dormiriam mais baixo e usariam outra estratégia.

Despertei as 3 da manha no dia 19 de dezembro…sozinho no Refugio Tejos a 5800m. Temperatura  aprox. de -25 graus !!  Tudo congelado, inclusive meus pês que já não estavam quentes!!

Imprimi um ritmo forte,  após sair as 4 da manha…me sentia muito bem, não parava de caminhar e  tinha boa concentração. Antes das 10hs estava na cratera, muito vento, muito frio e muita preocupação com meus pes…..sozinho, sentei, analisei a situação e após avaliar meus dedos, decidi que poderia subir e descer com relativa segurança.

Em aprox. 1h mais, escalei a pequena parede que liga a cratera ao cume principal….algo exposta, qualificada como PD, talvez pela altura…..numa caída, certeza o prejuízo seria grande, ou fatal !!

Dou alguns passos com atenção, e vejo a caixa de cume a 3 metros de mim !! não esperava chegar tão rápido ! O frio me castigava, pês e mãos formigando….doendo!! Vento de derrubar!!

Tinha chegado ao topo do vulcão mais alto do mundo sozinho, percorrendo um longo caminho que eu podia ver lá de cima de bike !! Algo que me deixava feliz e agradecido !

Em poucos minutos, me preparo para a descida e vou em ritmo forte, procurando o aquecimento perdido nos minutos parado no cume.

Chego bem no Refugio Atacama, prox. as 14hs…uma descida rápida e segura.

La , inicio os cuidados com meus dedos , que não aparentavam nada muito serio, mas que doíam bastante e seguiram assim por mais de 30 dias….

Me sentindo bem, ao lado vejo vulcão que mais me atrai na região:  El Muerto, com seus 6477m uma diferente aparência (a esquerda na foto)

Me sentia muito bem e com boa recuperação,  entendia que poderia seguir os 20 dias que me faltavam seguramente!!

Porém, nessa mesma tarde, as coisas começam a mudar após a chegada de um turista italiano (sem guia e sem experiência em alta montanha) ao refugio Atacama (5200m) . Eu percebendo a gravidade da situação, depois de sua subida sem aclimatar, insistentemente tento faze-lo descer e aclimatar abaixo dos 4000m.

Não tenho sucesso….ele permanece lá. Sigo tentando, quando no dia seguinte…imagino eu que com um edema cerebral fulminante, ele morre ao meu lado, ao abaixar para pegar sua agua.

Um momento muito triste e vazio

Ativo o resgate com meu GPS de emergência e sigo uma rotina desagradável de ordenar as prioridades e fazer as coisas certas numa terrível hora…

Descido descer a 4000m e descansar….lá , vejo minha situação, e entendo que não tenho porque continuar. Acabava ali, em Laguna Verde, após a morte do Italiano, meu objetivo de subir os 10 vulcões acima de 6000m que eu tinha planejado.

Encerrei a expedição 20 dias antes do planejado, realizei 4 cumes dos 10 almejados….algumas lições aprendidas, boas e mas experiências…e mais uma vez, a montanha sutilmente convida a me retirar.

Agradeço, e me retiro humildemente….

No Paso Fronterizo San Francisco, descendo para Copiapó, sou recebido pela Policia de Investigaciones do Chile e pelo GOPE, para prestar os devidos e desagradáveis esclarecimentos.

Em Copiapó sou amparado pelo meu amigo Nikolai Zeller (Guarda Parque  da CONAF) e por sua família, Fernanda e Augustina em agradáveis momentos.

Lá, celebramos e discutimos o acontecido, e comecei a me organizar para a longa volta a Valdivia.

Duro esquecer o aconteceu por vários dias….duro ver alguém morrer ao seu lado num lugar desses.

Só me restava seguir em frente….voltei pra Valdivia, peguei minha bike e por 1 mês sai a treinar pela região de Aysén….ora lamentando, ora entendendo o que rolou, segui em frente e desfrutei o possível os bons momentos.

Agradeço a oportunidade de ter permanecido 1 mês num dos lugares mais extremos do mundo, e aos amigos Mario Sepúlveda, Nikolai Zeller e sua família, Conaf Atacama, CAP  (em especial Sylvio e Tércio), OVOSUR Chile, Aculeo Cub de Remo y Montaña , Patagonicus Chile e a todos que participaram  disto comigo!!

Ate a próxima!!!

Saludos,

Marcelo Campos

Valdivia, Chile – Marco 2013

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