Na Serra do Caparaó

por Fábio Kanahsiro

Como estava de férias, e sem ter o que fazer, tentei marcar escaladas com duas pessoas do CAP que infelizmente não puderam participar da empreitada. Decidi que faria alguma coisa sozinho, quando Edson Vandeira me sugeriu ir a serra do Caparaó para subir o Pico da Bandeira. Ele me informou que havia feito além do próprio Bandeira, outros 6 cumes, sendo 6 destes 7 cumes reconhecidos pelo IBGE dentre os 30 mais altos do Brasil.

 Decidi que faria a mesma coisa, mesmo sendo alguns destes cumes menos freqüentados. Fiz uma pesquisa e descobri que o Pico da Bandeira, Cristal e Calçado (este sendo o único não reconhecido pelo IBGE) eram os mais freqüentados. De fato, o Bandeira e Calçado seriam muito fáceis de localizar. O Cristal um pouco mais complicado, mas ainda bem freqüentado, enquanto Tesouro, Tesourinho, Cruz do Negro e Pedra Roxa bem menos frequentados.

Saí de São Paulo no dia 12/08/2013, uma segunda feira as 21:30 e dirigi até umas 02:30. Decidi então parar e dormir, e por volta das 06:00 já estava dirigindo de novo. Resolvi parar para abastecer o carro e tomar café da manhã por volta das 06:30, pouco antes de entrar em MG e antes das 07:30 já estava na estrada de novo.

Durante o caminho, decidi ir para a entrada Capixaba do parque, em Pedra Menina. Afinal, minha intenção não era apenas fazer os cumes, mas fazer a travessia MG-ES. Desta forma, eu deixaria meu carro no final da travessia. Cheguei na portaria do ES por volta do meio dia. Como já estava cansado por ter dirigido muitas horas, decidi que neste dia (terça-feira) iria apenas procurar um meio de chegar na cidade de Alto do Caparaó, onde se encontra a entrada do lado mineiro do parque, e lá procuraria uma pousada para começar a caminhada na quarta.

Conversei com o atendente da portaria capixaba do parque e expliquei minha intenção. Ele permitiu que eu estacionasse meu carro no Centro de Visitantes e me sugeriu pegar um táxi em Pedra Menina, já que eu teria de tomar 3 ônibus para chegar na portaria mineira. Ele mesmo ligou para o taxista e deixou um recado.

Decidi descer os 7km de estrada que levam ao vilarejo de Pedra Menina, quando, após andar 2 km, o taxista Elton me encontrara. Combinamos o preço e ele me levou até o Alto do Caparaó.

Lá chegando fiquei numa pousada a apenas 500 metros da entrada do Parque. Andei pela cidade, almocei, descansei um pouco e fiquei enrolando até a noite, indo dormir por volta das 23:00.

Acordei no dia seguinte, quarta feira, as 07:00. Tomei banho, café da manhã e caminhei para a entrada do Parque. Disse que faria a travessia para o lado capixaba, passando pelo Pico da Bandeira, Cristal e Calçado, além de procurar os outros cumes que eram desconhecidos pelo atendente que estava lá naquele dia. Dei como previsão de saída o domingo, pois acreditei que seria prazo mais que suficiente para fazer estes cumes.

Após pagar as taxas, comecei a subida, por volta das 09:30. Os primeiros 6km de caminhada, da portaria até o Tronqueira, são bem fáceis e é possível subir de carro. Antes de chegar no Tronqueira, é possível pegar uma trilha até a Cachoeira Bonita.

Caminha-se mais um pouco e chega-se no Tronqueira, o primeiro camping, onde também há um estacionamento e mirante.

Subindo um pouco mais, é possível pegar outra trilha para o Vale Encantado. O local é realmente muito belo e vale a pena a visita. Tive sorte, pois neste dia o tempo estava bastante ensolarado.

Continuei a caminhada e cheguei no Terreirão por volta das 14:30. Comi um lanche e cochilei numa sombra.

Chegaram então 3 pessoas, um casal e mais um guia local (Rogério) que os estava acompanhando. Eles haviam acabado de retornar do Pico do Cristal por uma trilha que saía direto do Terreirão. Conversei com o Rogério, que me afirmou que o caminho que eles haviam feito era mais longo que o caminho “normal”, mas que valia a pena pois passava por uns riachos. Perguntei a ele se conhecia os outros picos – Tesouro, Tesourinho, Cruz do Negro e Pedra Roxa. Recebi dicas preciosas de como chegar nestes quatro picos.

Como ainda eram 16:00, resolvi caminhar até o Cruz do Negro, que era o mais próximo do Terreirão. O tempo estava nublado na direção do Cruz do Negro, mas achei que valia a pena fazer um rápido reconhecimento com o objetivo de poupar tempo no dia seguinte.

Para chegar no Cruz do Negro, pega-se a trilha que leva ao Pico da Bandeira (que é muito bem marcada) e caminha-se até o momento que a trilha começa uma subida numa laje de pedra. Neste momento, há uma bifurcação não muito bem marcada, e uma trilha que contorna um morro esquerda. Segue-se por esta trilha até um mourão, que devia fazer parte de uma cerca. Chegando neste mourão, segue-se a esquerda, subindo pela crista do morro. Subindo alguns poucos metros já é possível visualizar alguns totens.

Por volta das 17:30 me encontrava na trilha Pico da Bandeira – Terreirão, e vendo que o sol estava prestes a se por, resolvi ficar contemplando a paisagem e tirando umas fotos.

Cheguei no Terreirão, fiz minha janta no abrigo dos guias, fiquei conversando com o Rogério e o casal que lá estavam, até a hora que resolvi dormir. Peguei minhas coisas e bivaquei em frente aos tanques, pois não queria montar a minha barraca.

Acordei no dia seguinte, quinta feira, as 06:00. Fiz meu café, comi e comecei a caminhar por volta das 07:30. Deixei minha mochila cargueira escondida no meio do mato, perto do Terreirão, e parti com uma mochila de ataque.

Apesar de já conhecer o caminho, decidi que andaria em ritmo moderado, para evitar uma torção de tornozelo, ou qualquer coisa do tipo, uma vez que eu estava sozinho e seria um perrengue muito grande caminhar com o pé torcido de volta para o Terreirão. Umas 08:20 cheguei no local que eu achava ser o cume do Cruz do Negro. Seguindo em linha reta, encontrei totens, que desciam o morro. Segui esses totens, que me faziam caminhar sempre na crista do morro. A visibilidade era bem ruim, pois o tempo estava bem nublado. Após descer para um pequeno vale, a trilha começava a subir por um morro, até chegar num cume. Percebi que havia algo errado, pois entre o Cruz do Negro e Tesourinho há um curral. Até que, finalmente, encontrei uma cruz! Neste momento percebi que desta vez realmente estava no cume do Cruz do Negro.

Parei um pouco para descansar, e por volta das 09:00 decidi continuar caminhando até o Tesourinho. A trilha permanecia sempre na mesma direção, descendo pela crista do morro. Apesar de pouco freqüentada, a trilha estava bem sinalizada por totens.

No entanto, a visibilidade começou a ficar muito ruim. Eu estava no meio da descida, quando ficou impossível enxergar 5 metros a frente. Resolvi esperar para ver se o tempo abria, e tive sorte quando o vento levou um pouco da névoa embora e aumentou bem a visibilidade. Desta vez, no meio da descida consegui enxergar o curral.

O curral consiste em um cercado retangular, onde uma das arestas é uma grande pedra e as demais são feitas de arame farpado. A caminhada entre o Cruz do Negro e o curral é bem sinalizada por totens, e segue sempre pela crista da montanha.

Apesar de ser uma caminhada bem fácil até o curral, cheguei lá apenas por volta das 10:00, pois andei muito lentamente devido a pouca visibilidade. Ora o vento levava a névoa embora, ora trazia de novo… a visibilidade aumentava para 20 metros e diminuía para 5 em questão de minutos. Foi necessária muita paciência neste trecho da caminhada.

Após chegar no curral, deve-se contornar sua pedra pela esquerda e tomar uma trilha que sobe pelo lado esquerdo do morro. A trilha tem alguns totens que a sinaliza, sendo necessário atenção neste trecho da caminhada. Novamente minha subida foi lenta demais, devido a névoa que aparecia e sumia…

Cheguei no cume do Tesourinho as 11:30. Desta vez não tive como me enganar, pois há um cercado de pedras, ruínas de um abrigo construído e depois demolido pela administração do Parque.

O próximo cume, seguindo em frente, seria o do Tesouro. No entanto, o tempo estava ainda mais fechado na direção do Tesouro, sendo impossível enxergar o cume. Achei que seria muito arriscado fazer uma investida com pouca visibilidade num local desconhecido, pouco freqüentado e sozinho. Resolvi aguardar por uma hora para ver se a névoa se dissipava o suficiente para enxergar o cume, pois assim saberia pelo menos em qual direção deveria caminhar.

Aguardei, esperando que a montanha fosse generosa comigo, da mesma forma que tinha sido até então, fornecendo visibilidade suficiente para que eu alcançasse meu objetivo. Entretanto, desta vez não tive tanta sorte e o cume do pico do Tesouro ficou o tempo todo encoberto. Decidi que 12:40 era um bom horário para retornar, pois garantiria que eu chegaria ainda de dia no Terreirão. Além disso, assim como a montanha pode ser generosa, fornecendo visibilidade e tempo bom, rapidamente ela pode mudar de idéia e trazer chuva, névoa e, dependendo das condições, um belo dum perrengue.

Senti-me um pouco frustrado, pois ficaria difícil fazer o cume do Tesouro, dado que é o pico mais afastado de todos. No entanto achei que seria mais prudente desistir e tentar uma nova investida depois, um outro dia…

Desci de volta até o curral, onde cheguei por volta das 13:00, subi de volta ao Cruz do Negro. Peguei um pouco de chuva logo após chegar no Cruz do Negro, e as 15:00 já estava de volta a trilha do Terreirão. Decidi, então, pegar minha mochila cargueira e seguir para o Pico da Bandeira. Resolvi acampar no cume do pico da Bandeira, ou em algum lugar próximo, pois o Pedra Roxa poderia ser alcançado logo após subir o Pico da Bandeira, e o Cristal e Calçado ficavam entre o Bandeira e a portaria do ES, meu destino final.

Arrumei minhas coisas e parti por volta das 16:00. Cheguei a 200 metros do cume do Bandeira as 17:45 e resolvi acampar por ali mesmo.

Fiz meu jantar e fui dormir. O tempo não estava muito bom, muito nublado e com um pouco de garoa. Desta forma, resolvi que dormiria até tarde e não acordaria para ver o nascer do sol como a maioria das pessoas fazem.

Acordei no dia seguinte, sexta feira, por volta das 07:00 e ainda estava nublado e um pouco frio. Resolvi ficar enrolando um pouco na barraca e só saí por volta das 08:00. O tempo começou, então a melhorar, até que as 08:30 ficou bem aberto. Subi ao cume, onde tirei umas fotos.

Conseguia enxergar claramente o Pico do Calçado e o Pico Cristal. Procurei o Pedra Roxa, cuja descrição, segundo o Rogério, parecia um chapéu do klu-kux-klan, sendo um pico bem pontudo na direção oposta do Cristal. Não consegui identificá-lo, mas como a visibilidade naquela direção não era das melhores, decidi caminhar até o Pico Cristal.

Desci o pico da Bandeira por volta das 09:30 e tomei a trilha em direção a portaria capixaba. Cheguei por volta das 10:00 no Pico do Calçado, fácil de ser alcançado, uma vez que a trilha passa pelo seu cume. Estava apenas com uma mochila de ataque, tendo deixado minha barraca montada com minha mochila cargueira e material de acampamento dentro, próximo do cume do Bandeira.

Passando o cume do Pico do Calçado, a trilha para a portaria capixaba desce e é muito bem marcada, ficando o Pico Cristal a direita. Continuei descendo, até um momento que percebi que tinha ficado muito longe do Pico Cristal. Percebi que eu provavelmente havia perdido a entrada da trilha, e resolvi voltar. Subi por cerca de meia hora, até encontrar um “X” amarelo numa pedra. Era o início da trilha para o Pico Cristal. Esta trilha sobe por um morro, e a subida termina numa laje de pedra que tem vários totens. Desta laje basta seguir os totens em direção ao Pico Cristal, que pode ser visto o tempo inteiro.

O trecho final da subida para o Cristal é uma escalaminhada tranqüila, mas que exige atenção, principalmente na descida. Cheguei no cume umas 11:40, e fiquei por ali um bom tempo, aproveitando a vista privilegiada do Bandeira e Calçado.

Desci o Cristal e caminhei de volta para a minha barraca. Cheguei por volta das 13:30 e subi de novo ao Bandeira. Minha intenção era aproveitar que o céu estava mais aberto e tentar ver o Pedra Roxa. Consegui avistar um pico próximo ao Bandeira, mas não tinha o formato descrito pelo Rogério. Fiquei na dúvida se seria aquele o Pedra Roxa, e decidi deixar para seguir naquela direção no dia seguinte.

Como estava um pouco cansado, resolvi tirar um cochilo. Dormi até umas 15:00. Notei que minha água estava acabando e decidi ir até o Terreirão para pegar água. Cheguei por volta das 16:00, peguei água e resolvi também tomar um banho. As 16:30 iniciava a volta para a minha barraca. Decidi voltar rápido para tentar ver o por do sol do cume do Bandeira. Não consegui chegar a tempo de ver o por do sol do cume, mas consegui ver a 200 metros do cume.

Decidi ir dormir cedo para ver o nascer do sol do cume do Bandeira. Acordei no dia seguinte, sábado, as 04:00 e não consegui mais dormir. Levantei as 05:00 tomei meu café e fui para o cume. Por volta das 05:30 começou o espetáculo.

O cume estava cheio e era a primeira vez que eu conversava com pessoas desde quarta-feira. Fiquei por lá mais uma hora e decidi caminhar na direção do pico que eu achava que poderia ser o Pedra Roxa. Comecei a descer o pico da Bandeira e me encontrava novamente sozinho.

A descida na direção do vale é relativamente tranqüila, mas não encontrei nenhum totem que indicasse que aquele caminho levaria a algum lugar. Chegando na base do bandeira fiquei a beira de um matagal e não consegui encontrar nenhuma trilha. Encontrei apenas uma bica, de onde minava água, com uma mangueira azul.

Sem ter certeza de ir na direção correta, sozinho e sem conseguir achar uma trilha minimamente marcada, ou um totem, decidi que seria arriscado tentar seguir para o Pedra Roxa. Como já estava um pouco cansado, decidi subir de volta o Bandeira, descer até minha barraca, desmontá-la e seguir para a portaria capixaba.

Iniciei, então, a descida, por volta das 09:00. Passei novamente pelo pico do Calçado e continuei descendo. Passei ainda pela Cachoeira da Farofa, Cachoeira dos Sete Pilões e Cachoeira do Aurélio.

Como o tempo estava nublado, não fiquei muito tempo nestes locais e desci até o Centro de Visitantes, onde estava meu carro.  Cheguei por volta das 15:20 e desci até o povoado de Pedra Menina.

Encontrei novamente o Elton, taxista, que me levou até a pousada / cafeteria Villa Januária, onde eles vendem um café que, segundo eles, venceu um concurso em 2012 como o melhor café do Brasil.

Após saborear o café, que é realmente muito bom, parti para BH. E assim terminou minha primeira visita ao Parque Nacional do Caparaó.

Ainda preciso voltar lá, pois não consegui chegar no pico do Tesouro e Pedra Roxa.

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