Afinal, que CAP queremos ser?

por Fábio Alberti Cascino

Eis uma pergunta carregada de infantil idealismo. A pergunta “que clube queremos ser?” nos remete a um projeto futuro, algo eventualmente belo, algo talvez bom, por isso, não raro, algo fácil de ser aceito e que faz dessa questão, em rito acrítico, uma questão de aparência pertinente – como é gratificante a chance contínua de uma repaginada, né?! 

Contudo, essa pergunta comporta um quê de desconsideração ao passado, ao que de fato já existe; é na atenção ao passado, nele e com ele, que pode se constatar a existência de uma linha de condutas, de posturas, de realização e metas. Não olhar para trás parece querer evitar a maturidade, esta sim atenta aos espelhos da existência.

Da existência do CAP emana uma história; dela podemos entender o que temos sido. Dessa história podemos afirmar que temos uma personalidade e uma cultura. E, por isso, a pergunta voltada ao futuro, “o que queremos ser?”, coloca de lado, sem prudência, o que já somos. O desrespeito ao passado, às tradições, aos valores praticados e às conquistas e resultados alcançados é amiúde próprio dos jovens. Contudo, são as práticas e valores do velho, morador do passado, que define nos dias que correm o modo como agimos, o que desejamos e o que somos capazes de realizar.

Afinal, podemos perguntar, que CAP temos sido? O que temos feito ao longo de cinqüenta e tantos anos (desde 1959)? Quais as nossas mais importantes conquistas? Quais os personagens que fizeram parte de nossa história? Quais os ritos que definiram nossas atividades esportivas nos anos 60, nos 70, nos 80… Quais foram as principais expedições? Fizemos cursos básicos nos passado? Como as pessoas se associavam no início do Clube? E como era feita a comunicação entre os sócios quando só havia telefone, telégrafo, papeis impressos, rádio amador? Quem programava as saídas nos finais de semana?  Havia campo escola?

Atualmente, parece que poucos sabem que fomos os primeiros a ir ao Himalaia (com Max, Michel, Alex, nos anos 80), que conquistamos o Pico da Neblina (com Michel, Adi e Galba no final dos 70), que conquistamos cumes virgens no Peru (Giobbi, anos 50/60), na Patagônia (Peter, anos 60/70), que definimos o local da EACF (Antártica, início dos 80), que abrimos a Serra Fina (anos 60/70), que conquistamos vias no Baú, que fomos os primeiros no Brasil realizar cursos de gelo e alta montanha (Argentina, Chile, Bolívia e Peru), além de conquistas no V. Ribeira (P. Slavec, 60/70) e que somos desde o final dos anos 50 (!!), dos primeiros clubes a constituir uma escola para a formação de montanhistas e guias de montanha – com notável regularidade, a partir da atuação de colegas amadores mas de responsabilidade e competência profissionais.

A nossa história é longa, densa, repleta de importantes personagens, relevantes conquistas, e de uma sólida cultura de montanha trazida e cuidada por pessoas conhecedoras, amantes do esporte e das montanhas – muitas delas já não estão mais aqui -, e que foi transmitida para muitos de nós que estão hoje atuantes e presentes em muitas frentes de trabalho no CAP, dando seguimento técnico e cultural ao que de fato já somos.

Porém, infelizmente, as reiteradas comparações com outras entidades e formas de atuar (“por que outros clubes têm saídas regulares e nós não?”), que tão facilmente geram críticas às nossas ações, acabam por impedir que a nossa história seja conhecida e compreendida. Essa ignorância sobre a nossa própria história, cultura e personalidade é o caminho curto que permite que uma instituição já adulta exercite a infantil pergunta “o que queremos ser (quando crescer!)?”, numa espécie de reinvenção da história – “agora sim o Clube começará a existir!”.

Viver a condição de uma instituição amadurecida no reconhecimento de sua trajetória nos inspira a trabalhar por continuidades, reformas, acréscimos, substituições, renovações… reelaboração condizente com uma história que já existe, e não agora a sua invenção.

 

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