GPS, metáfora de nosso tempo

por Fábio Alberti Cascino

Não sou contra o GPS. Tampouco a favor. Pra ser franco, traquitanas tecnológicas não me atraem. Sinto-me parte dos “velhos”; gosto de ler em silêncio, ficar parado a observar o balançar das árvores, o canto dos pássaros, o ritmo lento do nascer e do por do sol e ouvir de cabo a rabo um mesmo cd de música erudita ou jazz, se possível sem barulhos junto. Bem, se tenho que andar – e gosto bastante de fazer isso -, costumo seguir trilhas, dessas que se podem ver quando abaixamos a cabeça. Essas mesmas que só não as vemos se houver uma neblina londrina ou se estiver a chover um Amazonas sobre as nossas cabeças.

Isso faz com que eu seja incluído, como já disse, no rol dos “velhos” – e também muito comumente na lista dos “chatos”. Tá bem, fazer o quê, que assim seja – e não perco nenhum minuto de sono por isso. Ao mesmo tempo, gosto de querer saber alguns por quês dessa condição. Gosto de estudar as razões que colocam os que são críticos à aderência absoluta às traquitanas tecnológicas como estranhos e esquisitos.

O caso do GPS é emblemático. Sem dúvida, um importante equipamento de navegação para barcos de qualquer tamanho, para coisas voadoras quaisquer e até para caminhantes em áreas totalmente abertas ou totalmente fechadas. Em outras palavras, para os seres humanos, em áreas sem referências geográficas fáceis, um GPS é um fundamental aparelho de sobrevivência.

Ora, se estivermos no Ártico ou na Antártica, em qualquer mar aberto e longe da costa, se na Floresta Amazônica ou na Savana Africana, sem pontos de referência – montanhas, lagos, rios, monumentos… – o que fazer sem um GPS? Ou sem uma bússola, um astrolábio ou um sextante? Ou sem um rádio, uma fogueira, um tambor ou apito pra chamar alguém?

Pra quê mesmo um GPS numa montanha quando a temos inteira em nossa frente? Vamos e venhamos, pra que os tais pontos de definição de rota (waypoints) quando temos uma trilha aberta e bem marcada à nossa frente, que se vê fácil mesmo com um tanto de chuva ou neblina? Por que a demanda por mais esse gadget eletrônico se o que precisa ser visto e conhecido está à frente, visível e conhecido? Para ensaiarmos riscos e dificuldades? Para brincarmos de exploradores e gritar: “legal, aqui é aqui!”?!

Francamente, acho que o GPS é largamente utilizado para nada. Ou, pior, ele oprime as nossas capacidades instintivas de ler os terrenos e, como animais, achar os bons caminhos.  Entre montanhistas, então, que por óbvio têm que estar sempre com uma massa de terra e rocha enorme à sua frente, qual a razão de carregar o tal aparelhinho? Realmente, isso sim é que é muito estranho e esquisito.

Acho mesmo que se trata de uma grave condição contemporânea: o GPS atua como mais um manipulador de territórios, um produtor de ‘não-lugares’ (ver a obra de Marc Augê). Ele serve para, numa frente, somar para os mecanismos de dependência totalizante das chamadas ‘novas tecnologias e, noutra frente, tornar mais “bacana” a navegação feita ‘de fora’ do que aquela possível na relação dos seres humanos com os lugares.

Com efeito, um aparelho que é tomado como fundamental para orientar espacialmente as pessoas sem que as mesmas se deem conta que já não olham mais para os lugares em que se encontram, de fato, é uma metáfora reveladora do tempo antirrelacional que vivemos.

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