O CAP, as cavernas e a especialização

por Fábio Alberti Cascino

Não há mais espeleologia no CAP. Há muitos anos não temos um grupo estável de espeleólogos, de pessoas dedicadas a explorar cavernas.

Atualmente, há valorosos colegas que se dedicam a visitar com certa regularidade algumas cavernas, em geral as do Vale do Ribeira, e apresentá-las aos novos montanhistas – como parte das atividades dos CBMs. Porém, manter acesa a chama do que um dia foi a potente e relevante espeleogia do CAP é algo que está a exigir a (re)constituição de um grupo de esportistas exploradores com metas ousadas, algo, a meu ver, além das condições atuais.

Até o início dos anos 90, ainda havia no CAP um Departamento de Espeleologia. Era composto por pessoas atuando integralmente na exploração de cavernas. Ao longo da história do CAP, desde os anos 60, os espeleólogos capistas foram responsáveis por um número importante de descobertas, de mapeamentos e de travessias.

Na Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE), até hoje, no arquivo de descobertas e mapeamentos de cavernas brasileiras, o material produzido pelos capistas é muito significativo, talvez ainda o mais extenso e significativo.

Da Intervales a Goiás, de Minas ao R. G. do Sul, o Brasil foi explorado pelos cavernícolas do CAP. Nomes como Peter Slavec, Bruno Selmer, Roberto Brandi, Max Haim, entre tantos e tantos outros, a partir dos lições e ações de Michel Lebret, marcaram a história da espeleologia brasileira.

Por que então não temos mais no CAP de hoje uma espeleologia de vontade e metas exploradoras com um grupo atuante e produzindo incursões ousadas às cavernas?

Porque nos especializamos. Como ocorreu em tantas outras atividades no mundo contemporâneo – da medicina à engenharia, das atividades esportivas aos serviços -, as práticas generalistas, os equipamentos multiuso, a formação de largo prazo voltada a frentes de atuação multidisciplinar perderam terreno para as práticas focadas, os equipamentos específicos e a formação rápida pautada na obtenção de resultados em curto prazo.

Acrescente-se que espeleólogos tendem a atuar como cientistas; uterinos, mergulham de fato nas explorações e seus trabalhos resultam de processos investigativos, muito mais que mera atividade esportiva. Já os montanhistas atuam mais no âmbito esportivo; raramente há o aspecto científico envolvido em suas incursões – traçar diferentes e inéditos caminhos é parte de sua chave interpretativa. Tais peculiaridades sustentam diferenças entre esses dois grupos.

Nos últimos tempos, são poucos os que procuram formação em montanhismo considerando as cavernas como um palco pertinente às atividades de montanha; por exemplo,a demanda atual pelos CBMs vem sendo marcada pelo foco fechado nas atividades em montanha strictu senso, bem distante de uma antiga compreensão de conexão entre tais atividades.

Para o bem e para o mal, as atividades de aventura estão especializadas. E o CAP, pela sua atual prática, optou dedicar-se estritamente a andar e a escalar pelas montanhas.

Haveria então espaço para a volta da espeleologia e a recriação de um grupo, de um departamento voltado à exploração de cavernas no CAP? Penso que não. A especialização é um movimento muito forte. Superá-la em direção à constituição de novas/outras generalidades exige compromissos éticos, políticos, técnicos e metodológicos de ordenamento complexo. Porém, penso também que essa seria uma meta muito bonita a ser alcançada.

Enfim, duas perguntas: 1) há como se praticar um montanhismo multifacetado como o que resultaria do encontro entre escaladas, caminhadas e espeleologia hoje? e, 2) quem estaria disposto a protagonizar a invenção dessa outra maneira de praticar montanhismo?

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