Escalada da Princesinha do Itaguaçu

por Bruno Rodrigues dos Santos

No dia 28 de Abril de 2017, Eu (Bruno Rodrigues Santos), Eduardo Barrios, Tatiane Rodrigues e Renato Valentim viajamos para o Espírito Santo, com o objetivo de escalar a via Princesinha de Itaguaçu (4º IVsup E3 D2 de 520 metros) na Pedra do Barro Preto, um maciço de rocha escura que se mostra imponente ao fundo da cidade de Itaguaçu. Essa rocha é o símbolo da cidade, cujo nome em Tupi-Guarani significa Pedra Grande.

Os quatro escaladores desse grupo se conheceram no Clube Alpino Paulista (CAP), onde fizemos o Curso Básico de Montanhismo (CBM), que nos proporcionou conhecimentos técnicos, e uma grande amizade baseada no amor pelas montanhas e na vontade de escalá-las. Escalar uma grande via tradicional era um sonho comum a todos nós. A ideia de escalar essa via veio após uma conversa que eu tive com o Alex Viana um amigo de escalada, que havia feito uma via no Espírito Santo com mais de mil metros. Comentei com o Eduardo sobre o assunto e ele ficou excitado com a ideia. Começamos a pesquisar as vias que se adequavam ao nosso perfil e ele encontrou a Princesinha na Croquiteria do site da ACE (Associação Capixaba de Escalada). O próprio Eduardo começou a agitar e formar o grupo para esse desafio de encarar um grau de exposição 3. Todos aceitaram de cara. Após definirmos nosso objetivo, começamos os treinos com a ajuda do Adilson Campos, outro amigo de escalda mais experiente, que nos apoiou com conselhos, planejamento e muitos puxões de orelha.

Dois dias antes da escalada saímos de carro de São Paulo com destino a Itaguaçu, via Volta Redonda, Além Paraíba e Manhuaçu. Viagem cansativa, com mais ou menos mil quilômetros. 15 horas de estrada na ida e 16 horas na volta. Chegando em Itaguaçu fomos recebidos pelo Johny, escalador local e um dos conquistadores da via. Esse cara gente boa foi muito hospitaleiro, compartilhando seu conhecimento sobre essa e outras vias e nos acompanhando até a base da montanha.

Começamos o acesso à montanha às seis da manhã, às sete a Taty começava a guiar a primeira enfiada com o Eduardo como dupla. Eu e o Renato viemos logo atrás. A via possui 9 enfiadas. Decidimos que a dupla Taty e Eduardo iria na frente até 4ª enfiada, que ficava mais ou menos na metade da via, em uma parada natural (árvores) e dali continuaríamos eu e o Renato até o cume.

Logo na segunda enfiada, com o Eduardo guiando, sentimos que a tarefa não seria fácil, e ele teve um grande trabalho para achar o traçado da via, precisando subir e descer mais ou menos 20 metros sem nenhuma proteção. A cada enfiada que subíamos a exposição e a dificuldade de se manter na via aumentava. As quatro primeiras enfiadas foram escaladas com muita eficiência, nos deixando orgulhosos da Taty e do Eduardo que trabalharam muito bem com a exposição, muitas vezes sem saber por onde a via seguia.

Após um lanche rápido na agradável área de sombra que as árvores da quarta parada nos proporcionaram, as duplas trocaram de ordem e eu guiei a quinta enfiada, cujas chapas foram fáceis de encontrar. O negócio começou a complicar na sexta enfiada, guiada pelo Renato. Os vinte primeiros metros foram razoavelmente fáceis, uma subida um pouco mais vertical que a média da via em grau IV protegida por 4 chapas com distância de 5 metros entre elas. Esse trecho terminava em um abaulado e a via ficava menos vertical (talvez um grau III) porém mais exposta. Foi necessário escalar cerca de 40 metros sem nenhuma proteção procurando a parada. A princípio o Renato foi bem para a esquerda como mostrava o croqui mas não encontrou a parada, ele desescalou uns 15 metros e seguiu um pouco mais para a direita em direção a umas árvores e finalmente a encontrou. Porém, o maior desafio ainda estava por vir. A sétima enfiada tinha 60 metros e nenhuma proteção!

O croqui da Princesinha do Itaguaçu necessita de uma pequena correção na sétima enfiada, pois o desenho induz o guia a um erro.  No croqui a via passa por traz de duas arvores e depois segue bem para a direita. Tentamos seguir essa indicação, mas não encontrei a parada que deveria estar a cerda de 60 metros da P6, ou seja, com a corda toda esticada. Não avistei a parada e desescalei uns 40 metros quase voltando para a parada na qual o Renato fazia minha seg. Encontrei um p antigo que não pertencia à via do lado direito das arvores e distante uns 10 metros da P6, aproveitei para colocar uma costura, depois fui bem para a direita, tentando seguir a lógica do croqui, que apresentava um longa horizontal, e nesta travessia de uns 40 metros, quase cai após uma agarra quebrar e um reglete onde estava meu pé esquerdo se despedaçar. Também aí não encontrei nada. Os pensamentos negativos começaram a tomar conta, e um sentimento de derrota assumia o controle, já havia 40 minutos que tinha saído da P6, e a preocupação com o tempo foi aumentando, estava quase desistindo, quando avisei o Renato pelo rádio que tentaria subir em linha reta a procura da P7 e que essa seria minha última tentativa. Após subir uns 15 metros avistei de longe uma chapa que estava em uma linha mais ou menos reta do p antigo que encontrei, bem mais a esquerda do que sugeria o croqui, mais ou menos a uns 10 metros a direita da ultima árvore. O pessoal todo que estava esperando na P6 me disse depois que queria ter filmado minha reação quando encontrei a parada, porque vibrei e gritei muito, o sentimento de alívio foi tamanho que eu até me esqueci da exposição dos 60 metros até a P7. Achei que teríamos que desistir da nossa aventura ali, pois tínhamos perdido quase uma hora nessa busca e isso poderia comprometer a volta por causa do horário do por do sol.

A oitava enfiada foi guiada pelo Renato, era um IV de 55 metros bem protegido até os últimos 10 metros, aí tinha um trecho bem exposto com uma escalada que não era tão simples, pois quase não tinha mão e trabalho com os pés era mais de aderência. Como a inclinação não era muito forte deu para passar sem problemas. A parada 8, no final dessa enfiada foi fácil de encontrar, pois estava ao lado de um final de fenda, conforme descrevia o croqui.

Por fim, a nona e última enfiada, que foi guiada por mim, começava com um trecho tranquilo que passa por baixo de uma árvore. Após a terceira chapa o caminho era direto para o fim da via, o que seria o último desafio, já que neste lance a exposição era grande, de mais ou menos 25 metros, em uma parede vertical cheia de regletes, que se quebravam a todo momento. Subi devagar escolhendo bem os movimentos.

Chegamos na nona parada as 14h:30. A felicidade e a satisfação era imensa neste momento, só precisávamos esperar o o Eduardo e a Taty terminarem a escalada. Eu e o Renato nos desencordamos e tentamos encontrar a trilha curta para o cume. Infelizmente a uns 15 metros deste o mato estava muito alto e com muitos espinhos e foi impossível passar, entretanto pudemos rodear o topo e ter uma visão da cidade de Itaguaçu pelo outro lado do pico. A pedido do Jonhy instalamos um novo livro de cume que nós mesmos inauguramos. Tiramos muitas fotos, comemos um lanchinho e começamos a preparar a descida.

Iniciamos o rapel as 15:30, descendo em duplas, cada um em uma das 2 cordas de 60 metros. Resolvemos emendar as cordas com um nó de azelha, pois a via é muito suja, repleta de frestas, cactos e umas plantas que apelidamos de abacaxis. A descida das últimas 3 enfiadas foi rápida, por sorte as cordas não enroscaram nenhuma vez! Resolvemos descer por um rapel alternativo vindo da P6, para isso descemos em uma trilha sobre o pico secundário ao Barro Preto. No final da trilha era necessário encontrar na borda da pedra onde montaríamos um rapel de uns 35 metros. Esse foi um momento de grande preocupação, pois o sol estava se pondo e tememos não encontrar a parada somente com as headlamps, entretanto, antes de ficar escuro vimos de longe umas fitas coloridas que estavam amarradas para demarcar a parada. Terminamos de montar o rapel já no escuro, dessa vez descemos primeiro eu e a Taty e depois o Eduardo com o Renato. O rapel foi muito bonito, o Eduardo encontrou no meio da descida um P colocado por antigos escaladores. Resolvemos chamar esse local de via do abacaxi, por causa da grande quantidade daquelas plantas nesse paredão. No final do rapel desmontamos e guardamos todos os materiais e iniciamos a descida da montanha pela trilha. Fui à frente do grupo, tentando achar uma rota que nos levaria até a estrada, descendo mais ou menos uns 150 metros de desnível, que fizemos bem devagar por conta da escuridão, inclinação e sujeira da rocha. No final da rocha, fizemos um vara mato de mais ou menos uns 10metros e a felicidade de estar com os pés no chão era indescritível, estávamos cansados e felizes, demos uma abraço coletivo fechando nossa escalada às 19:00 após 12horas de subida e descida.

A via Princesinha do Itaguaçu foi escalada somente 4 vezes em 8 tentativas, duas vezes pelos conquistadores, portanto fomos o terceiro grupo a escalá-la. A pouca presença de montanhistas faz com que a via seja bem “suja”, cheia de plantas, o que dificulta bastante a escalada e o rapel. Outro fator que complica o trabalho dos escaladores é o tipo de pedra, bem frágil e quebradiça. Perdemos a conta da quantidade de vezes que quebramos agarras e regletes das mãos e pés. Felizmente nenhum de nós chegou a cair seriamente por causa disso. Apesar de tudo é uma via ótima para quem quer começar a escalar vias tradicionais longas. Quando chegamos na cidade após a escalada somente a reação das pessoas quando ficavam sabendo do nosso feito fez valer a viagem. Era uma mistura de admiração, descrença e um pouquinho de ciúmes. Aí a pergunta mais frequente era o fatídico – Por quê? Nessa hora a melhor resposta, e a mais plagiada do mundo da escalada, é a do velho escalador Mallory: Porque estava lá, meus caros!

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