Uma semana, duas trads!

Por Renan Albertini

São Paulo, outubro 2017 – Fui o último a integrar a cordada, planejada há meses, ainda na emoção da primeira via conquistada no Espírito Santo, a mais longa até então feita pelos meus 4 parceiros Tati, Edu, Bruno e Renato, que descobriram, organizaram e depois me convidaram para encarar uma escalada verdadeiramente tradicional, uma gigante de 800 metros, pouco protegida e praticamente desconhecida aqui em São Paulo, na Pedra Paulista, em Itaguaçu – ES.

A imaginação voa longe quando você se dá conta que tá dentro, que vai mandar uma via de 800 metros, com 13 enfiadas, com exposição E4, planejada meses antes da execução. Especialmente para mim, que teria que deixar no feriado de 12 de outubro, minha esposa Carol e a Catarina, minha filha ainda na barriga da mãe, completando seus 8 meses. Teria que voltar mais forte, pronto para encarar esse novo desafio, a paternidade.

Foi longa a espera até o embarque para Vitória, para só então pegar um carro e rodar 200 KM até Itaguaçu e finalmente ver de perto sua imponência. Lá estávamos frente a frente com a face norte daquela rocha deslumbrante, a gigante Pedra Paulista.

Antes disso…

Assim que a investida foi confirmada começamos a organizar os fins de semana pensando em estar preparados, o plano era entrar em todos os quintos graus possíveis para ganhar conforto. E foi nesse clima que um outro projeto, sonho de qualquer montanhista brasileiro, caiu em nosso colo. No fim de semana antes de Itaguaçu, iríamos para a clássica Dedo de Deus, em Teresópolis.

Em poucas semanas organizamos tudo e tocamos pro Rio. Saímos de carro de São Paulo, direto para “Terê”, no fim da tarde da sexta-feira (07/10). Às 5h30 da matina do sábado estávamos na Frutaria, ponto de encontro marcado com o Cassiano “Magrin”, carioca nascido nas montanhas da região serrana do Rio que seria nosso guia, um parceiro de peso para a ascensão pela face leste do Dedo.

Chegando no Dedo

A aproximação é exigente, mais de uma hora de subida de trilha, com todo equipamento, até chegar nos rampões protegidos com cabos de aço. A proteção artificial ajuda a vencer mais rápido as primeiras rochas, até colar de fato no blocão em forma de indicador que dá nome ao pico. O ataque se deu exatamente as 6 da matina.

A primeira enfiada é tranquila, um misto de trilha, com escalaminhada, trepa pedra e um lance mais marcante pela exposição do que pela dificuldade. Mais uma enfiada um pouco mais exigente e a coisa muda. O trecho agora tem até nome: a famosa Maria Cebola. Impossível passar o lance pela primeira vez e não comentar (leia-se amaldiçoar) quem o classificou como um mero terceirinho… Saída esquisita, apoiada num regletinho, e confiando na aderência da sapata.

Exposta, bem exposta…

Passagem sinissstra

Passado o lance vem uma incrível sequência de chaminés bem diferentes umas das outras. Foi nessa hora que o tempo, que oscilava entre totalmente fechado e algumas janelas casuais, virou de vez. O cume estava perto, mas seria conquistado debaixo de chuva!

Eu, Bruno e Tati éramos a última cordada, a outra, com Cassiano, Edu e Renato chegaram no topo ainda secos. Adilson e Marangoni, parceiros do CAP, que por coincidência mandaram a via no mesmo dia, já preparavam o rapel. Só então mandamos o último lance de total aderência, já com a água correndo na via.

Terminada às pressas a última enfiada foi só subir a escadinha de metal, fixada entre a base e a rocha que leva ao cume. Nem a ausência total do visual, nem a garoa forte acabou com a alegria de chegar na metade do caminho, o cume do Dedo! Como diria o Magrin, sinnissstro parceiro!

A volta foi gelada e escorregadia, mas nem por isso, menos sensacional (afinal, tempo bom, só no Off!) Rapel após rapel, fomos deixando a montanha pela via em que ela foi conquistada, a via do Teixeira. Intermináveis rampas com metros e metros de cabo de aço corroendo as mãos molhadas até a trilha onde tudo começou, de headlamp na cabeça e o corpo já quase sem pilha. Missão cumprida! 12h30min foi o tempo entre entrar e sair da montanha. Aí foi só jantar e curtir a conquista!

Cordada completa
Cume molhado

Ainda no caminho de volta pra São Paulo a ficha caiu… Faltavam apenas três dias pro nosso verdadeiro objetivo, a via “Nada é o que parece ser”.

Rocha rugosa, bem aderente, forrada de regletes e pequenos cristais.

O primeiro desafio, ainda no dia anterior, foi encontrar a via nessa gigante. Com a primeira chapeleta cravada a cerca de 20 ou 30 metros da base, ficamos a tarde toda procurando a danada. “Eae, achouachapa? Não? Pô, achachapa aí”.  Não encontramos. Sensação de “PQP, só faltava essa”!

De volta ao Hotel Amigão em Itaguaçu fomos atrás de qualquer beta que pudesse ajudar. Primeira ligação não atendida, insistimos e na terceira tentativa conseguimos, direto na fonte! Oswaldo Baldin, um dos conquistadores da via em 2010 atendeu o celular e nos deu o norte. “Como assim, passamos horas nesse mesmo lugar e não vimos nada?!?”.

Na manhã seguinte, alvorada as 4h30. Café da manhã tomado, equipo pronto, voltamos pra rocha. Chegamos nos primeiros raios de sol. Já certos que ia ser um pepinão achar a via, mesmo com os betas, medo de quanto tempo isso ia tomar. Pra alegria geral e pro bem do planejamento, em menos de 15 minutos após vencer a pequena trilha e o costão que separa a estrada da via, ela estava lá. “Achamoachapa!”.  #Beta sobre a saída da via no fim do texto.

 

Via “Nada é o que parece ser”

A cordada maior com 3 escaladores (eu, Bruno e Tati) atacou primeiro pra ditar o ritmo, já que a segunda, com apenas dois (Renato e Edu) seria muito mais rápida se liderasse.

Por alguns anos a “Nada é o que parece ser”, da Pedra Paulista, foi a maior via do Espirito Santo, até perder o posto para a “O tempo e o Vento”, na Pedra da Lajinha, com 1150 metros. Classificada como uma via de 4º grau, com 2 enfiadas cheias em 5º, e duração D4, a linha traçada começa suave, com um esticão em 3º Sup, de 60 metros, com apenas 2 proteções. Logo de cara já descobrimos que a qualidade da rocha é pra lá de duvidosa. Regletes hipertraiçoeiros, que esfarelam por qualquer coisa.

A via vai ficando mais forte gradativamente. A P2 evolui para um 4°, seguida de um 4º Sup, até chegar no que, para nós, foi o Crux. A quarta enfiada, também de 60 metros, é um quinto cheio, do início ao fim, razoavelmente protegido por 5 chapas. É aí também que você descobre quanto espinho tem um gravatá, arbusto que cruza a linha da via durante toda a subida. Foram os regletes podres que derrubaram a Tati e o Bruno, enquanto guiavam a P4. A sequência segue na mesma pegada. Outro quinto cheio, com 4 proteções e bombada de gravatás no caminho. Ao mesmo tempo que a planta tenta te transformar em peneira, os platozinhos que as sustentam viram a meta depois de cada lance. Outro ponto negativo pra espinhenta é o aumento do arrasto que ela causa já que a via, muitas vezes, segue contornando as moitas, deixando a corda no meio dos emaranhados.

Toca pra cima!

A partir daí a montanha dá uma trégua. O trecho começa a perder inclinação novamente. A P6, classificada como 4º Sup fica suave depois dos 120 metros de Crux! Até este ponto, faltando ainda 7 enfiadas demoramos 4 horas. Das 6h às 12h.

P7 e P8 viram escalaminhada. Costão de 60 metros cada, sem proteção entre as paradas. Aí decidimos ganhar tempo. Tocamos direto até a corda esticar, apenas costurando na parada entre os dois esticões de 2º grau. Corda esticada, o segundo sai a francesa e o terceiro repete a mesma estratégia, recebendo uma seg de corpo.

Rapidinho evoluímos para a P8, um 4º Sup bem tranquilo. P9 volta a ser um segundo que até um par de Havaianas daria conta. O foco estava no trecho entre a P10 e P11. Outro quinto, agora ainda mais cansados e com o sol, que foi bem gente fina até então, começando a rachar.

Contrariando as expectativas, percebemos que o tal do quinto foi superestimado, não passava de um quartinho suave na nossa impressão. Da P11 até a P13 foi um tiro só, o ataque final vira mais uma vez um costão de 2º grau, com um ou outro lance beirando o 3º na P11. Só alegria, é cume! A nossa primeira cordada (tripla) bateu no topo às 14h40. A segunda chegou às 15h40.

É nóis no cume!

A descida é por trilha, suave, mas longa. Andamos por horas, entre trilhas, escadas de cimento, costões de rocha, plantações de café e uma estradinha vicinal, que te leva para dentro de um vale, há mais ou menos 7 km do carro, que ficou na base da Pedra Paulista.

Foi aí que conhecemos o Seu Isaias. Dono de parte dos pés de café que cruzamos na descida, após uma breve conversa, com a noite já começando a aparecer, o agricultor pegou seu caminhãozinho e encurtou nosso trajeto. “São Isaias” contornou o vale com a habilidade e velocidade de quem faz aquele trajeto desde que nasceu, conhecia cada buraco.

Foi assim que chegamos outra vez no pé da Pedra Paulista, concluindo nossos planos, encerrando essa temporada de montanha com uma semana sensacional, com duas longas vias tradicionais, muito planejamento, risadas e parceria! Já pensando quais serão as próximas…

Fim da trip, junto com São Isaías

Em tempo: fui cobrado de mencionar aqui que um dos parceiros mandou as duas vias de tênis… será?!?

 

Nada é o que parece ser – Pedra Paulista – Itaguaçu /ES.

Beta da entrada da via.

Ao parar o carro em um pequeno recuo na estrada, bem de frente com a face da rocha, comece a caminhada por uma picada, seguindo para a direita, até chegar em uma cerca de arame farpado. Cruze a cerca e continue a direita, até chegar em um costão. Comece a subir o costão, olhe para o (falso) cume bem acima. Assim que ele assumir um formato quadrado (foto), você está na base da via “Nada é o que parece ser”. Deixamos um pequeno totem (foto) que marca o local. A primeira chapeleta não pode ser vista do chão, é preciso escalar uns 5 metros para avistá-la.

Seguindo para a direita o (falso) cume fica quadrado. A via começa aqui!

 

Totem que fizemos na base da via

Croqui completo da via no site da ACE – http://www.ace-es.org.br/scripts/croqui.asp?via=200

 

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